De porta em porta

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

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Faz muito tempo. Padeiros, leiteiros e verdureiros saíam de madrugada de seus estabelecimentos para entregar respectivamente pão, leite e verduras diretamente  na casa do cliente - prova de que atendimento direto ao consumidor não é novidade. Era comum usarem terno e chapéu, uma elegância só. Sem vans adesivadas, padeiros subiam na carroça que trazia o nome da padaria pintado à mão na lateral e levavam, solenemente, de porta em porta, o alimento que inaugurava as manhãs de todas as casas.  Algumas donas de casa esperavam-nos à porta de casa com dinheiro nas mãos ou nos bolsos dos aventais que usavam na frente do corpo, para não sujar os vestidos. Se não dinheiro, levavam a caderneta que registrava cada compra,  fechada e zerada todo final de mês.  O leite, natural, sem tratamento, vinha colocado em vidros transparentes, hoje considerados peça de lojas de antiguidade. Os que vinham estavam cheios e marcados e eram trocados pelos imaculadamente limpos: as donas de casa lavavam-nos até voltarem a ser translúcidos, sem qualquer cheiro. O leite tinha que ser fervido, o que era feito em fogões à lenha e, ao esfriar, deixava nata de quase três centímetros na vasilha. Com ela fazia-se manteiga. Os pães vinham embrulhados em papéis pequenos que os envolvia apenas na parte central, bojuda. Invariavelmente eram do tipo baguete e grandes: cortados, tirava-se deles pelo menos seis boas fatias. Os verdureiros tinham veículos ligeiramente diferentes. Na falta de  caminhonetes, na busca de maior eficiência, suas carroças tinham carrocerias  abertas e ali eram expostos legumes, verduras e frutas. Todos usavam buzinas, instrumentos que produzem som estridente, para anunciar a chegada e, pelo toque, é que se reconhecia cada fornecedor. Davam atendimento, um dedo de prosa e iam embora lentamente, a sacolejar nas ruas sem calçamento, parando em todas as portas para atender ora os habituais fregueses, ora novos clientes. Padeiros e leiteiros deixavam as entregas nas soleiras das portas,  toda vez que os donos das casas prolongavam o sono. As  mercadorias não desapareciam se não eram entregues em mãos. Era uma época em que ladrões, que já existiam, pelo menos respeitavam casas de família. Faz tempo, isso.  

 

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