Memórias - Uma viagem pelo túnel do tempo

Por: Sônia Machiavelli

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Há vinte dias recebi em minha sala no GCN a professora Lucileida Castro, cujo apreço ao idioma português, amor à literatura e cuidadoso olhar sobre a  educação são conhecidos dos francanos bem informados. Ela me levava naquela tarde quente de março um livro cujo título, Memórias- Uma viagem pelo túnel do tempo, impresso  na capa dura sobre foto em tons sépia, me chamou logo a atenção, tanto quanto o nome do autor, Gutemberg Giolo.  Este, até então, estava ligado em minhas lembranças a atividades do setor farmacêutico (Drogalar) e produtos químicos (Franquímica). O livro era a primeira incursão de Giolo, 76 anos,  à seara das letras, e a beleza da iniciativa mobilizou meu espirito. 

Na nossa conversa de meia hora, Lu, como a chamam os amigos, me revelou ter acolhido o sonho de Gutemberg  Giolo,  desenvolvendo com ele a parceria onde a escrita do autor iniciante pôde ganhar  caminhos de clareza e independência .  Em alongado processo de luto pela perda da mulher,  e um tanto deprimido,  Giolo  procurou a educadora e escritora Lu há cerca de três anos. Queria  ajuda para mostrar em livro sua trajetória pessoal, repleta de acontecimentos  aos quais conferia o valor de  quem sempre vivera  com dignidade, amor, esperança e gratidão.  E tinha aquela consciência relevante, como eu leria na apresentação da obra, de que “a história de cada ser humano é marcada, por um lado, pelas suas decisões pessoais, pelas oportunidades que ele  tem, pelas surpresas que a vida impõe. Por outro lado, é influenciada pelos impactos que a história de cada época têm sobre o tecido social.”
 
Levei o livro comigo na viagem que fiz a Goiás pela Páscoa. E ele me cativou  já nas primeiras páginas; em dois dias o devorei.  No  relato o autor se remetia para o remoto  passado de seus ancestrais, a Itália de 1881. Dividindo a história em duas partes, percorria  na primeira 80 anos; a segunda, marcada pelo seu casamento com Beatriz  Baldo, na Franca de 1961, “se estenderá até onde a memória e o coração puderem ir”. 
 
Estão aí as duas palavras-chave deste livro: memória e coração. A primeira se nutre de fatos e documentos. Nesta linha da narrativa são resgatados nomes como o patronímico do autor, Giolo, e outros que também falam aos francanos  porque seus descendentes aí estão, trazendo com genes europeus já mesclados a presença imigrante nestas terras . São os Ferro, Maranha, Toffoli, Carraro, Baldo, Pretti, Piccolo e muitos outros que, “vitimizados pela crise econômica, pela fome, e falta de perspectiva” em seu país de origem, a Itália, o deixaram em busca de oportunidades no Brasil.
 
Contrariando muitos dos  que praticam o gênero  autobiográfico, ao traçar o perfil de seus antepassados, o autor não se restringiu a usar a farta documentação que reuniu,  aí incluídas certidões  de casamento, nascimento, mapas  e  dúzias de fotos. Ele  foi  muito além do historiador, viés forte em seu discurso, e deixou  emergir de sua alma o escritor  que, em muitos trechos, com linguagem plástica conferiu aos  cenários contornos emocionais e aos personagens tal movimento  que se tornaram inolvidáveis. Como esquecer  a referência a  “Sesto Al Reghena, uma das 51 comunas da província de Pordenone, pertencente à região autônoma de Friuli-Veneza Giulia”? Como não se deixar tocar pelos membros da  família Morassut, cujo deslocamento acidentado da Europa para a Argentina e depois o Brasil  ainda hoje seria custoso? E de que forma ficar insensível ao temperamento aguerrido de Antônia Morassut,  a filha do meio, que se deixando levar pelos apelos do coração veio para nosso país, mais exatamente para Franca, e  fundou com Santo Ferro uma grande família composta por pessoas que se tornariam respeitáveis por sua contribuição à terra que os acolhia_ Luís, Vitório, Henrique, Domingas, Tereza, Angélica?
 
Há um quê de muito humano na descrição dos antepassados  do autor e de sua mulher, a maioria deles apenas conhecida por falas de terceiros ou por alguma documentação que acena com elementos passíveis de um mergulho mais profundo. É  reunindo à palavra denotativa a literária que Gutemberg  Giolo os  recupera para o leitor que acompanha com interesse e emoção o itinerário das peculiares pegadas italianas. É também pela palavra literária ancorada em fatos reais  que o autor adentra a segunda parte da  biografia recontando  sua vida  de filho único que ainda menino aprendeu a ganhar a vida; de adolescente curioso que recebeu de farmacêuticos antigos da Franca lições sobre a  arte de manipular remédios ; de  jovem que revelou talento empreendedor em diversas atividades; de  homem que formou com a mulher a quem dedicou seus melhores sentimentos uma família bonita. Mas nem tudo são flores nesta segunda jornada, como não foram fáceis as jornadas precedentes.  O sofrimento é parte inarredável de toda  vida;  o feijão e o sonho muitas vezes parecem antagônicos. No capítulo “Uma normalidade”, essa conclusão vem no parágrafo onde, de forma filosófica, o autor reflete : “... a vida e o tempo vão nos mostrando que há uma brutal distância entre o que planejamos e a realidade.”
 
Para os que talvez se perguntem a razão de ser deste livro, Gutemberg  Giolo responde primeiro  de forma fática: : “Meus filhos e netos são o principal motivo deste livro, que foi escrito para que conheçam a nossa própria história.” Mas é na sua voz lírica que percebemos algo além do factual: “ Alguém já disse que a alma não anda em linha reta e cresce como um bambu. A alma se desdobra como um lótus de inúmeras pétalas. Assim também é a vida de todos nós.” 
 
Memórias- Uma viagem pelo túnel do tempo nem parece obra de estreante. Narrativa de linha cronológica definida e conjunto de documentação  preciosa em fotos e documentos, mostra-se biografia bem estruturada em duas partes e 46 capítulos. Mas, pela linguagem que  resvala muitas vezes pelas metáforas, criando um nível mais sonhante de leitura, quase poderia ser incluído no gênero romance.  Exibe até momentos proustianos, quando, por exemplo, o narrador conta que ao ver uma obra do conhecido  Cariolatto exposta na antiga galeria Caminito ( a tela retratava  um dos muitos casebres de adobe que o jovem Giolo  conhecera no bairro Boa Vista)  sentiu-se “voltar ao passado (...) entrando naquele lugar, vestindo um jaleco branco, segurando
em minha mão o estojo de injeção feito de cobre, amarrado ao meio com um garrote de látex.”
 
Eu diria que entre o documental  e o lírico, Memórias- Uma viagem pelo túnel do tempo se impõe como literatura de qualidade, aquela  que permanece em nós por sua consistência formal e pela importância do que o autor tem a dizer.  É livro de autor a ser incluído na próxima edição da História da Literatura Francana, pesquisa alentada de Luiz Cruz de Oliveira. 
 

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