O despertar do afeto

Por: Isabel Fogaça

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O céu de Ribeirão Preto no fim da tarde é o mais bonito de todos. As nuvens vermelhas engolem a tarde inteira dentro de um bocejar, e penduram a lua lentamente como aqueles quadros que a gente demora pra colocar na parede. O céu do dia 31 de março, especialmente, estava tão bonito que parecia ter sido pintado por canetinha de criança, aquelas que a menina molha na língua quando a tinta acaba. Eu observava tudo pela janela do ônibus, estava sentada na poltrona de número 12 que dava para o corredor, olhei para o lado e avistei uma desconhecida que verificava suas atualizações no celular, então, eu disse: “Olha! Que bonito!” apontando para fora.

Ela assustada com a estranha intimação olhou pela janela, e eu para os olhos dela buscando uma expressão que identificasse o que ela estava sentindo. Timidamente, a mulher de cabelo vermelho que cheirava a tabaco, sorriu. Ficamos caladas ali, ambas observando o cair da tarde de Ribeirão Preto, e o sol já era uma bola brilhante tão grande que parecia uma daquelas laranjas que minha avó gosta de fazer doce para alegrar meu avô.
 
Nothing Else Matters, minha canção favorita do Metallica, soava como uma oração num território onde eu e a moça permanecíamos quietas olhando aquele espetáculo terminar. Pensei em várias coisas naquele momento: na minha mãe que tanto me respeitava, no meu irmão que é um poço de doçura, e até mesmo num moço que não vejo há tempos, mas especialmente, entre tantas coisas boas, pensei como o céu, de tão bonito, era capaz de criar um estranho afeto entre eu e a moça de cabelo vermelho que nada me disse.

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