Sopro no vácuo

Por: Eny Miranda

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Quando não consigo um tema para a minha escrita, é como se perdesse o ar, ou como se o chão não amparasse meus pés, já que, para mim, escrever é como respirar e manter-me ereta. Mas sei que o ar está à minha volta, e o chão continua sob mim. Quando não me faltam temas, entretanto me fogem palavras, aí, é como se não existisse nem ar, nem chão no mundo, só um visgo amorfo, magma, areia movediça, massa irrespirável, instável, inconsistente. Contudo, se tenho o tema e tenho as palavras, mas não me é possível, com eles, dizer o que a alma grita, ah, então, nem o mundo parece existir: tudo é um grande vácuo.

Há algum tempo estou mergulhada nesse vácuo. Mil temas me perseguem, me provocam, sufocam, asfixiam; mil e muitas palavras me brotam, entre gritos inaudíveis e falas emudecidas. Todos, temas e palavras, têm formas, caras, cores e vozes; todos me instigam e desafiam. Nenhum me poetiza. Olho angustiada para essas formas, cores e caras, com suas vozes agressivas, desafiadoras, e me entristeço, emudeço.

“O que me tranquiliza é que tudo o que existe, existe com uma precisão absoluta” - valha-me, Clarice! Ela veio em meu socorro. Talvez porque, como costumava dizer, nasceu para escrever, amar os outros e criar os filhos. Veio, talvez, porque sinto ânsia de escrever, sou uma entre “os outros”, e seus filhos já estão criados. Veio e me trouxe de volta o ar e o chão. Trouxe-me, no vácuo em que me encontrava, matéria, espírito e matéria de espírito: verbo de preencher vácuo. Trouxe-me aquela madrugada italiana, quando “as folhas começaram a cair, e a primeira neve também”, em “chuva de ouro e de prata”. Acudiu-me com a possibilidade de vida, como a flor de Drummond, nascida no asfalto da náusea. Ajudou-me a enxergar que, apesar de tudo, a manhã está linda, neste início de outono. Os passarinhos já descobriram isso e cantam, e voam, e fazem ninhos.

Então, o coração se esperança.

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