O irreal quarto de Jack

Por: João Eduardo Hidalgo

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No nascimento do cinema os Irmãos Lumière apresentaram a descoberta como uma invenção, o prestidigitador George Méliès (1861-1938) que viu a sessão não concordou com eles; os irmãos não se interessaram nem em discutir o assunto e muito menos em vender uma de suas câmeras originais. A nova expressão artística nasceu como registro científico, um processo químico, portanto racional (documento do real) e Méliès mostrou a todos que ele poderia ser uma técnica de fabulação. Os franceses e americanos foram os primeiros a interessarem-se pelo dispositivo que permitia colocar pessoas e objetos na frente de uma lente e criar uma narrativa, inspirada na literatura do final do século XIX. Depois de muitas tentativas e suposições, a linguagem cinematográfica já estava estabelecida antes do final da segunda década do século XX. O termo ‘documentário’ foi cunhado por John Grierson (1898-1972), cineasta inglês do General Poste Office Unit Film, numa resenha crítica sobre o filme Moana de Robert Flaherty (1884-1951), para o jornal New York Sun, em fevereiro de 1926, criando a partir daí a clássica oposição ficção/documentário.

O filme irlandês/canadense Room (O quarto de Jack, 2015) foi uma das grandes surpresas do Oscar deste ano, falando de um tema trágico que estranhamente assola majoritariamente o norte da Europa e os Estados Unidos, o rapto e abuso sexual de menores e jovens, cativou crítica e público. Sendo um filme de ficção, ele trouxe para o tema mais atenção e discussão que os casos reais, que são muitos, nos quais se inspirou. O roteiro do filme foi feito pela escritora irlandesa Emma Donoghue, que escreveu o livro em 2010. Muitas foram as ocorrências de desaparecimento e abuso sexual de menores no período, mas uma ficou particularmente conhecida, o de Natascha Kampusch, menina sequestrada na periferia de Viena, em 1998, aos 10 anos e que conseguiu escapar em 2006, já com 18 anos. Neste mesmo ano foi lançado na Inglaterra o livro de Allan Hall e Michael Leidig Girl in the Cellar: The Natascha Kampusch Story e o canal britânico Channel 5 criou um documentário com uma longa entrevista com Natascha e com imagens minuciosas de seu cativeiro em cinco metros quadrados. O caso teve uma imensa repercussão na Europa e enfaticamente no Reino Unido, onde vive Emma Donoghue. Natascha Kampusch lançou seu livro em 2010, mesmo ano de Room, com o título de 3096 tage (3096 dias). Em 2013 a história real de Natascha virou filme 3096 tage (3096 dias de cativeiro, no Brasil), realizado na Alemanha, para distanciar-se da polêmica na Áustria.
 
O livro de Emma Donoghue Room – a novel, é uma ficção, como o próprio título esclarece; o de Natascha Kampusch 3096 tage é um relato real em primeira pessoa. Para o cinema temos as bases de um drama e a de um documentário, mas a própria origem do cinema o liga a uma narrativa visual e sonora que é sempre uma recriação da realidade, seja ela ficção ou registro do real. Os dois gêneros têm a marca da reprodução e da artificialidade, seja ela uma excessiva ficção ou uma suposta realidade objetivamente reencenada; a realidade ‘verdadeira’ (documentário) parece mais difícil de transmitir que a artificial (ficção). Este é meu ponto de vista nesta comparação de Room e 3096 tage.
 
Nas duas obras criadas a partir da experiência de Natascha Kampusch: a ficção 3096 tage (3096 dias de cativeiro) e o documentário Girl in the Cellar (2006) prevalecem as técnicas convencionais de registro no cinema. O drama é competentemente encenado, a atriz irlandesa Antonia Campbell-Hughes emagreceu mais de quinze quilos para viver o papel e está contida e intensa, já o protagonista masculino não tem o mesmo talento. Mas as cenas são arrastadas, a câmera está sempre fixa enquadrando o cenário de forma simétrica. Os planos são bem ensaiados e a monotonia se instala. Caso tenha sido intenção passar a solidão e o tardar das horas e dos dias, o filme acabou contaminando-se do artifício e ficou sem ritmo e pouco verdadeiro. O documentário da TV inglesa é didático demais, descreve, analisa, disseca e não chega a nada. E os dois têm um problema fundamental: a falta de distanciamento, fruição e mediação. Kampusch exagera nos detalhes e nos dados e não consegue nunca atingir a contundência que a experiência necessita, ela informa e não emociona ou modifica a nossa experiência sobre o fato.
 
Totalmente oposto é o resultado de Room (2015), o enredo e o cenário mínimo desdobram-se em imagens e situações inusitadas e aparentemente sempre novas. Já nas primeiras imagens vemos fragmentos de objetos que identificaremos depois, como o abajur, a pia, a mesa. No enquadramento vemos primeiros planos e closes do rosto de Jack e de sua Ma (mãe), quando eles se falam, a câmera, que parece estar pousada no ombro da mãe, gira de sua face para a de Jack. Esta câmera é ágil, se movimenta o tempo todo e são usadas varias lentes que deixam o quarto redondo, escuro, grande ou pequeno, alongado e muitas vezes o foco não é regulado deixando os personagens ou objetos distantes desfocados (na vida vemos assim).  Dentro de uma rotina surreal mãe e filho fazem exercícios juntos, a câmera os olha de cima, pequenos e isolados no chão. Ma faz com que Jack corra de um lado para outro e gire em 360 graus, acompanhamos e tomamos consciência de como é mínimo o espaço físico. A mãe estimula Jack a ter aptidão física e principalmente nenhuma limitação mental.
 
Vemos que Ma tem olheiras profundas, marcas de golpes já cicatrizados, os lábios sem cor e o cabelo desalinhado. Os cabelos têm mais de cinco anos sem corte, Jack tem o dele na cintura. As roupas têm uma aparência de muito usada e Ma as lava e coloca em um varal dentro do quarto, cabe tudo neste espaço. E Jack o explora de todas as maneiras e ângulos, adora olhar para a clarabóia, que é a janela para o ‘lá fora’, o mundo. Esta clarabóia traz o sol para este ambiente, Jack o manipula refletindo sua mão na parede, importante lembrar que a única outra ligação com o mundo exterior é uma TV (outro reflexo). Jack afirma que a comida também vem dela, como mágica. Aos poucos a mãe mostra a diferença entre o que é fantasia: desenhos e o que é realidade: jornal, entrevistas.  A figura masculina aparece neste ambiente como a representação do mal: primeiro o repulsivo Old Nick e depois o rato, que Jack quer transformar em amigo; os dois são afastados dele pela mãe.
 
Room começa com uma narração em off (quando o personagem não aparece) de Jack que diz: era uma vez... Já no livro ele nos informa em primeira pessoa que ‘hoje tenho cinco anos’. Esta data é marcada por um bolo de aniversário e pelo início do esclarecimento de dados que até agora Jack entende como sendo todos de um mesmo universo, o do quarto. Num momento chave do filme ele pergunta para onde vai quando sonha e a mãe responde que ele fica no quarto mesmo. Com trinta minutos de filme Ma esclarece que está neste lugar porque foi ajudar um homem que disse que tinha um cachorro doente, quando ela tinha 17 anos, e sete se passaram desde este dia. Depois de muito pensar Ma decide que Jack vai fingir-se de morto e ela o colocará dentro do velho tapete, Old Nick não terá outra alternativa a não ser levá-lo para longe e enterrar o corpo. A armadilha funciona e Jack consegue fugir do interior do tapete e mesmo alucinado pelo azul do céu, pela grama, pelo espaço consegue gritar e pedir ajuda, a libertação da mãe vem em seguida. Depois da primeira parte do filme fica a impressão que a única parte imaterial do filme é o quarto, pois ele consegue ser mais amplo e universal que o mundo exterior. A explicitação que estamos em Akron, Ohio e que Ma é Joy e que tem uma mãe e um pai rompe com a verossimilhança da imaginação de Jack, mas não invalida o desfecho. Jack com sua imaginação ilimitada está pronto para o mundo, Ma (Joy) terá problemas, pois deverá enfrentar todas as consequências do brutal crime do qual foi vítima, e de como ele mudou a sua vida e de sua família, sem que eles tenham controle sobre isto. Estas oposições real e irreal dentro do filme fazem parte da verossimilhança que a maioria dos filmes criam na sua construção. O livro e o filme Room tem a qualidade de representar uma multiplicidade de vozes, dos que foram vítimas deste crime incompreensível e desumano e como são uma representação desta realidade podem transcendê-la, por serem maior que a síntese ou simples registro das mesmas.
 
Um exemplo que explicita este meu argumento é o filme Le cerf-volant (Sob o céu do Líbano, 2003), que é um documento vivo da incompreensível e injustificável guerra judeu/palestina no oriente. Nesta ficção estão contidas a condição de submissão de um povo ao outro, pelo poder econômico, a submissão da mulher e a incapacidade de todos em encontrar o caminho da redenção. E a sensível diretora Randa Chahal Sabbag (1953-2008) ainda nos brinda com uma segunda ficção dentro desta ficção, quanto os dois apaixonados (uma libanesa e um israelense) aparecem juntos no alto da torre de observação, metaforizando a impossibilidade/insustentabilidade da realidade contemporânea da região. Quando Jack volta com sua mãe para visitar o quarto onde nasceu e ficou preso cinco anos sintetiza: ‘ele é tão pequeno’. Concordo, grande é a capacidade humana de tecer, a partir da realidade, uma narrativa que a espelhe de uma maneira tão completa, que uma fração deste real nunca encontrará correspondência dentro da complexa teia que ela ontologicamente contém; como um ponto já conteve toda a matéria do universo, antes do big bang.  O quarto de Jack é este ponto cientificamente ficcional e ilimitado. Um drama ou documentário no cinema passam pelo mesmo fator criativo, a capacidade humana de fabular.    

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