Obituário

Por: Jorge Damante

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Que palavra bonita essa obituário,

não é que vem de óbito, 

do latim obire ir à frente,
 
quando chegar minha vez quero estar no obituário,
 
mas não quero estar em qualquer obituário, quero estar no obituário do Comércio,
 
antes tu do que eu, pensastes...
 
De fato, pressa também não tenho, nem me incomodo se fores à frente antes que eu,
 
mas que quero estar no obituário do Comércio, isso quero,
 
não terei sido famoso e minha biografia não passará de umas poucas linhas,
 
dessas destes homens assim, que nada fizeram, que contribuição alguma deram à humanidade...
 
do tipo comum, existiram, apenas existiram, ocuparam, ainda que inutilmente, certo espaço e tempo no globo terrestre,
 
destes que muito mais erraram do que acertaram... e pela vida erraram, que nunca tiveram a pretensão de santos ser
 
e por favor, não admitirei que venham a me qualificar de íntegro ou honesto, porque isso será mentira,
 
não existem homens íntegros e honestos, pois que tal absurdo é contrário à natureza humana, mísera natureza humana,
 
se disserem que amei os animais e as plantas, concordarei,
 
se disserem que amei os homens, concordarei,
 
se disserem que vivi e nada compreendi, concordarei,
 
se disserem que mais errei do que acertei, concordarei, 
 
só não abro mão de no obituário estar, a isso clamo, 
 
irei à frente de muitos, em busca dos muitos que foram à minha frente,
 
aos que ficarão para trás não voltarei para contar o que verei à frente,
 
aos que encontrar à frente, de teima, também não levarei notícia nenhuma, e não adiantará insistir,
 
e se nada encontrar...? Pânico... e se for só escuridão...? 
 
Deixa pra lá, daqui uns anos ninguém se lembrará,
 
mas, por favor, não deixem de me colocar no obituário do Comércio.

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