O bibelô

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

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 A aniversariante faria 15 anos por aqueles dias, em próximo março de distante ano do século passado.  Aos domingos, quando passeava na praça central com irmãos e pais, passava em frente das atraentes vitrines da principal loja da cidade. Seu olhar ia de seção em seção e certo dia  deu com bibelôs de porcelana que reproduziam cenas do cotidiano e do fantasioso mundo interior da menina.  Ali ela se encantou com a pequena bailarina na ponta dos pés, de rosto angelical e roupa cor-de-rosa, a mesma cor dos seus sonhos de menina-moça.  Não ousava pedir, sabia dos limites do orçamento familiar. Tão encantada ficou, que a mãe percebeu. À guisa de comemoração da importante data,  sem festas, deu-lhe o bibelô de presente de aniversário que  ficou como marco não somente da data, mas da delicadeza da mãe que trabalhou o dobro para adquirir tão preciosa peça, a partir de então  permanentemente exposta e sob suas vistas.  Ficava na penteadeira, quando solteira; sobre móvel da sala, quando se casou; na peça fechada a sete chaves, enquanto teve filhos pequenos; no móvel antigo da sala, desde então. Foi ali que a neta mais velha, anos mais tarde,  descobriu o bibelô, através da barreira da janela de vidro.  Quando fez cinco anos perguntou para a avó se podia pegar a pequena bailarina nas mãos.  Olhou-a cobiçosamente. Posso ficar com ela? Não, não podia, naquele momento, não. Já lhe pertencia, mas somente quando fizesse quinze anos a avó a deixaria levar para casa, combinaram. Durante dez anos a neta esperou a entrega, fazendo as contas de forma regressiva: faltam seis, faltam quatro, falta um ano! Talvez fosse pelo desejo de possuir - e desejo de possuir é sentimento que poucas crianças experimentam hoje ou desde que se reinventou  o sentido de frustração infantil. Talvez fosse porque a avó supervalorizasse o presente e o momento, quem sabe? Talvez porque a realização de qualquer sonho tem tempo para acontecer.  Mas eis que o dia chegou. Às vésperas de completar quinze anos a neta mais velha, ao lembrar a avó que o dia da entrega da bailarina estava próximo, fez seu compromisso: “Muito obrigada, vó! E saiba: quando minha neta mais velha fizer quinze anos, eu passo a bailarina para ela!”. É desse material -  amálgama de alegria, recordação, valorização, sonhos, desejos, cumprimento da palavra - que a tradição é feita, a avó concluiu. E despediu-se do bibelô.  

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