O Duplo

Por: Luciano Bonfante

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No início do filme O Duplo, adaptação livre do diretor Richard Ayoade para o livro homônimo do escritor russo Fiódor Dostoiévski, assistimos a uma cena em um vagão de metrô com apenas dois passageiros. Um deles, segurando um jornal que lhe cobre rosto, ordena a outra pessoa a deixar assento: “você está ocupando meu lugar”, diz. A segunda pessoa é Simon James (Jesse Eisenberg, A Rede social, Batman vs Superman), funcionário em um escritório de ambiente claustrofóbico, sem janelas ou luz natural, ligada por um túnel à estação do metrô. É constrangedora a falta de reação de Simon ao ceder à exigência do desconhecido. Na mesma sequência, Simon observa uma garota no outro vagão, tenta alcançá-la, mas falha. Trata-se de Hannah (Mia Wasikowska, Alice no país das maravilhas), garota que Simon vive observando por uma luneta e almeja conquistar, mas não se encoraja em revelar sua admiração. Ao sair do trem, a maleta de Simon fica prensada na porta, ele puxa e fica só com a alça na mão. A essa altura, rimos do ridículo da cena, mas lastimamos tamanha inépcia do rapaz, momento que a empatia com o personagem está em jogo, e dependerá da identificação do espectador com o personagem. O que segue vai causando estranhamento e nos lançando no absurdo dos acontecimentos na noite interminável do filme, sem cenas à luz do dia. 

Simon é um jovem tímido, sem iniciativa, meio desajeitado e isolado da convivência social em um mundo onde as pessoas a sua volta parecem insatisfeitas ou infelizes. Tudo parece dar errado para ele no transcorrer do dia, às vezes, mostrado com comicidade, mas um humor desconcertante, evidente na cena que Simon é interrogado por dois investigadores de um suicídio testemunhado por ele. Desde o início sabemos da fragilidade de Simon e o quanto lhe falta iniciativas e recursos internos para sua sobrevivência. Uma pessoa cujos pensamentos e ações estão em constante conflito, sem sentimento de liberdade, um pássaro que se choca com uma vidraça, como é mostrado numa cena, dentre outras com elementos simbólicos espalhadas no filme. Ele é uma pessoa “sem voz”, seus lábios esboçam movimento, mas as palavras morrem e seu desejo emudece. Sabemos que as situações em que fracassa dependem sempre dele, mas ele é pouco capaz de lidar com a vida. Na empresa, apesar de insistir nos sete anos de casa que alega ter, Simon não é reconhecido pelo porteiro, o que o obriga a apresentar crachá a todo o momento, ou forçado a preencher uma ficha de visitante porque ele não existe nos arquivos da empresa, metáfora para mostrar como ele é anulado por um sistema em que o ser humano é “apenas parte do negócio”, como diz um personagem. Essa é uma maneira de anunciar seu desaparecimento como ser humano que já “não consta no sistema”, uma ameaça à sua subjetividade, sua identidade e senso de existência.
 
O cotidiano modorrento de Simon é transformado com a chegada de um novo funcionário, James Simon (o mesmo Eisenberg), de fisionomia idêntica à de Simon James, mas de personalidade oposta: simpático, assertivo, sedutor e funcionário eficiente.  Com tantas qualidades faltantes a Simon, este passa a sentir-se ameaçado, porém, o espanto de Simon é a semelhança física com James, o que potencializa seu sofrimento. Auxiliado por “seu duplo” a conquistar Hannah numa tentativa malograda, ele ensaia uma reação e consegue aproximar-se dela. No entanto, ele continua perturbado diante de seu sósia, sentindo-o como um espectro ameaçador, como se o duplo fosse usurpando sua identidade, seu lugar na empresa, e ele fosse desaparecendo. A perturbação na mente de Simon amplia e testemunhamos seu crescente desespero até o desfecho. Muito daquilo que vemos na tela é parte de seu mundo de fantasias e até de um grande delírio dele, com imagens bizarras, oníricas, como se ele estivesse dentro de um longo sonho. 
 
Simon é funcionário de uma grande empresa, servindo a um sistema em que ele vai sendo engolido e deixando de existir. Essa questão do sujeito perdendo sua identidade ao ser tragado por um sistema burocrático que não reconhece a subjetividade humana é recorrente na obra de Dostoiévski. No filme isso é observável na condição de visitante dele na empresa onde sempre trabalhou, e na sua queixa: “estou cansado de ser invisível”. Ou, à medida que se serve a um sistema que dilui individualidades, a identidade fica vulnerável. Este é um aspecto externo, psicossocial dessa questão, mas não menos importante porque observamos, no filme, a influência clara de outros autores como Franz Kafka (A metamorfose) e George Orwell (1984), escritores que também abordam a vida em um sistema burocrático e a sua interferência na vida do homem e na constituição de seu psiquismo.
 
A ideia de duplo como espelhamento do Eu remete a um tema muito caro à psicanálise: o narcisismo, cuja compreensão corrente na cultura é aquela do excessivo amor próprio. Há uma abordagem de que a manifestação desse puro amor por si mesmo tem função de eliminar da consciência a ideia de morte, lembrando que na lenda Narciso morre ao mergulhar no lago, apaixonado pela própria imagem refletida na água. O criador da psicanálise, Sigmund Freud, afirmava que a ideia do amor a si mesmo era um desejo de compensação para sobrepor o significado original da morte, criando um distanciamento com uma ideia agradável. Embora o medo da morte esteja associado ao instinto de autopreservação, há a contraparte: o ódio por envelhecer, saber-se mortal e, principalmente, de sentir o “aniquilamento do ego”, ou seja, a assimilação de que tudo que faz parte da consciência do “Eu” deixará de existir é muito difícil. Paradoxalmente, o suicídio viria para por fim ao próprio sofrimento com o medo da morte.
Simon deseja atingir o que em que psicanálise pode ser chamado de “ego ideal”. Ou seja, ele desejava ser alguém com características que não conseguia ter. São suas “ilusões narcísicas”, quando diz, “Não vejo o homem que quero ser em relação ao homem que sou”. As características que deseja para si são colocadas no seu sósia, mas ele descobre que há outras partes de sua personalidade que também surgem no duplo, partes que lhe são indesejáveis, e ele passa a sentir-se perseguido pela maldade do outro que, na verdade, origina nele mesmo (Simon), mas que ele projeta no outro, seu sósia. E qualidades atribuídas a James, na verdade eram de Simon, o que fica evidente quando James entrega trabalhos como seus, mas realizados por Simon. Essa condição do personagem confirma que o sofrimento é maior quando há muita distância entre o que se é e aquilo que se gostaria de ser porque requer lidar com mais frustrações.
 
A cena em que dizem a Simon que ele já não existe é muito angustiante, traz o pavor do sentimento de não existência. Há o risco de se perder a identidade se ela não estiver firmada e bem integrada dentro de si mesmo em todos os aspectos, antes que se “acostume a morrer”, como alguém diz no filme. Na vida, há o risco de se ser apenas um número, da pulseira da maternidade à lápide tumular, com o intervalo entre um e outro preenchido somente com rótulos e crachás. É trágico o indivíduo não conseguir ter em si um senso de existência, a marca psíquica genuína que o faz único. Pode-se ser solitário, mas capaz de ser companhia para si mesmo. Frágil e precário, mas com recursos internos para sofrer menos. Sentindo ser muitos, mas todos integrados em um: único, como deseja Simon. Unicidade que implica viver a dor da incompletude e consequentes frustrações na relação com o outro diferente mim; capacidade de ser boa companhia para si mesmo, responsabilidade pelo que leva dentro de si, e, a arcar com as escolhas feitas. O escritor Luigi Pirandello resume bem essa ideia: “O aspecto trágico da vida está precisamente nessa lei que o obriga a ser um. Cada qual pode ser um, nenhum, cem mil, mas a escolha é um imperativo”.
 
Venham ver a escolha de Simon!

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