Revolução & guerra

Por: Maria Luiza Salomão

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Quase não falamos mais a palavra revolução. Nos noticiários, ouvimos a palavra guerra. Historicamente, sabemos de revoluções sem guerras, até sem derrame de sangue, silenciosas e contínuas mudanças de mentalidades.  

Qual a diferença entre “revolução” e “guerra”? Consulto dois dicionários analógicos.  Um, do padre Carlos Spitzer, morto aos 39 anos, em 1922.  Outro, em quinta edição, 2010, de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo; primeira edição, 1950. 
 
Spitzer classifica as palavras revolução e guerra na V Classe de palavras - Faculdade Volitiva, e as duas palavras estão na divisão da Vontade Individual.  
 
Azevedo classifica Revolução dentro da Classe de palavras - Relações Abstratas - na divisão de Mudanças; guerra é classificada na V Classe de palavras, em Vontade Individual. 
 
O dicionário do Padre Spitzer foi publicado 14 anos após sua morte, mas ele deve ter acompanhado a Revolução Russa de 1917, e outras guerras sangrentas, mas não acompanhou o que resultou da I Grande Guerra. A II Grande Guerra, atribuída por muitos à humilhação imposta à Alemanha e à Áustria, que ocasionou a ascensão de Hitler ao Poder.  
 
O mundo, pós II Grande Guerra, sofreu mudança radical, divisão geopolítica de poderes, de idéias, mundialmente. O nazismo e o horror! Questões ideológicas permearam o século XX. Guerra Fria! Mundo dividido em blocos.  
 
Para cada palavra, Azevedo, 1950, elege uma seleção de palavras. Guerra, dentro da “Vontade Individual” guarda analogia com: batalha, missão, bombardeio, ciência do ataque e da defesa, armamento, armas de destruição em massa, convenção de Genebra.
 
Revolução, dentro de “Relações Abstratas”, na divisão de Mudanças, tem como palavras analógicas: golpe de Estado, inversão de valores, romper com o passado, abalar os alicerces, criar nova mentalidade, abrir novos horizontes, não deixar pedra sobre pedra. 
 
Guerra é associada à ação violenta.  Revolução se liga aos valores que mudam em relação a um passado, e eles não estão circunscritos à vontade de um só indivíduo. 
 
Revolução se aproxima à noção de processo, envolve relações, e não apenas uma ação radical, voluntária.
 
Nos noticiários, no cotidiano das relações, hoje, vemos comportamentos que se assemelham à guerra. Radicalismos fundamentalistas que impedem conversas; exigência de definição de partidos, de preferências.   
 
Haverá uma escalada de violência também nas ações? 
 
Qual é a direção dos oponentes, hoje, no Brasil – para onde apontam, cada qual com sua bandeira vaga e imprecisa, um futuro?
 
Haverá definição em termos de valores, alicerces, mentalidade, horizontes? Integraremos mentalidades?  
 
Soçobro em busca de uma pedra para assentar meu espírito.
 
Vejo pragmatismo para todo lado! Não há ênfase ao processo que pode levar a mudanças, progressivas, graduais, lentas e efetivas. Em valores, na reflexão sobre o passado que se quer deixar para trás. 
 
Não há reflexão sobre a tradição, para construir novo alicerce de valores nacionais. Quais seriam estes?
 
Como construir pontes entre conceitos abstratos e o sempiterno cotidiano de gerações? Ética? A “Coisa Pública”? Democracia? 
 
Em nome do quê estão as bandeiras assinaladas? Cá comigo espero uma revolução na mentalidade nacional. 
 
Arreio as bandeiras e penso! Urge sentir e pensar, antes de dar bandeira: a confusão é muita.

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