Mulheres Mineiras

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

318631

 Já quase sem nitidez, a foto pertence ao acervo da família Chico Sapo, como era conhecido em Uberabinha, hoje Uberlândia, o proprietário do único cartório daquela cidade, naqueles tempos da década de 20.  Francisco Emílio de Araújo, o dono do apelido,  se casou duas vezes. A primeira, com Maria Cândida, que morreu no parto quando lhe nasceu Rita Francisca, por apelido Ritinha, minha avó materna, a que está sentada à direita e que traz uma criança ao colo, o Francisquinho que, ao nascer, levou o nome do avô; e da menina com imenso laço de fita na cabeça, que recebeu o nome de Clara, minha mãe. Ao lado de minha mãe está tia Zazá, casada com tio Benedito, um dos filhos do Chico Sapo, portanto, irmão de vovó. Á esquerda, sentada, tia Fia, também irmã de minha avó, a cantora da trilha sonora da minha infância que incluía  Alza, Manolita, valsa espanhola, sucesso por aqueles românticos tempos, na voz de Francisco Alves. Na fileira de trás, em pé, estão outras parentes, entre as quais destaco tia Chiquinha, a única sem chapéu, fruto de amor fortuito de Chico Sapo com mulher que desapareceu, mas deixou-lhe a filha bastarda para ser criada junto com as outras irmãs. Cresceram sem qualquer traço de preconceito e foram amigas enquanto viveram.  Chico Sapo, só por curiosidade, se casou novamente e teve mais  cinco filhos. A foto, contou-me vovó, foi tirada no batizado de Maurício, filho de Carlos, irmão de vovó,  por fotógrafo lambe-lambe, vindo especialmente de Belo Horizonte para Uberabinha. O que me impressiona na foto é a circunspecção das mulheres, suas roupas, a cor de saudade que ela tem. Talvez elas soubessem que oitenta anos depois alguém olharia para seus rostos na tentativa de adivinhar o que pensariam naquele momento. Talvez, por isso mesmo, elas não revelam ou insinuam nada, o que me faz concluir que a arte, o artista e até o modelo,  carregam essa função de deixar-nos livres a imaginação, a partir do registro de um momento. Não me canso de olhar a foto. E imaginar. 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras