As Máximas do Duque

Por: Sônia Machiavelli

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Há bons casamentos, mas deliciosos não. Quem vive sem um pouco de loucura não é tão sensato como se imagina. O interesse fala todas as línguas e desempenha todos os papéis, mesmo o de desinteressado. A ausência diminui as paixões medíocres e aumenta as grandes, assim como o vento apaga a chama das velas e atiça os incêndios. Somos às vezes tão diferentes de nós mesmos quanto dos outros. É tão fácil enganar- nos a nós mesmos sem nos darmos conta, quão difícil enganar os outros sem que eles o percebam. Nunca somos tão felizes nem tão infelizes como julgamos. Lucraríamos mais se nos mostrássemos tal como somos do que tentando parecer o que não somos. O silêncio é o partido mais seguro de quem desconfia de si mesmo. O mal que fazemos não nos acarreta tanta perseguição e ódio como as nossas boas qualidades. Só encontramos bom senso nos que são de nossa opinião. Na amizade, como no amor, somos muitas vezes mais felizes pelas coisas que ignoramos do que pelas que conhecemos. Nas primeiras paixões as mulheres amam o amante; nas outras, o amor. Antes de cobiçar alguma coisa é bom indagar se quem a possui é feliz. Prometemos segundo nossas esperanças e cumprimos segundo nossos receios. A hipocrisia é uma homenagem que o vício presta à virtude. 

As frases acima são algumas das centenas que foram escritas por François de la Rochefoucauld,  nascido  príncipe em 1613  e tornado duque ainda na infância.  Muito jovem iniciou-se nos espaços da elite  intelectual da época, os salões franceses. Os maiores eram os de Madame de Lafayette,  Madame de Sevigné e Madame de Sablé. Mas foi  por outra Madame que ele se apaixonou, a de Longueville, uma das líderes de movimento chamado Fronda, Guerra Civil que agitou a França entre 1648 e 1653 e pretendia alijar do núcleo do poder  Richelieu e Mazarin. Num dos últimos combates do conflito La Rochefoucauld acabou ferido seriamente no olho, perdendo parte da visão. Sufocada a insurreição, foi banido de seu país e exilado. Voltou anos depois, cansado e doente. Mesmo assim  continuava acreditando que estava destinado a realizar grandes coisas. Vaidoso, nutria esperanças de que com o advento do reinado de Luís XIV teria reconhecimento, o que não ocorreu. Restou-lhe  a desforra de escrever, de derivar na arte o pesar de seu  íntimo desalento.
 
Para entender o pensamento dominante do período, é bom lembrar que sob o império do racionalismo cartesiano do século XVII move-se uma sociedade que embora viva mais pela razão que pelos sentimentos, permite-se todas as libertinagens, desde que  encontre para elas alguma justificativa  racional. Paixão, lágrimas, desesperos são expressões ridículas, de mau gosto, inadmissíveis  entre pessoas bem educadas. Altamente valorizados são a  polidez, o cumprimento de regras, o mundanismo. Nada de subjetivismos, nada de confidências. “Le moi est haïssable”,  “O eu é odioso”, afirma a legenda da arte clássica. Neste contexto, La  Rochefoucauld  olha de forma pessimista ao redor e tudo lhe parece falso, mau, enganoso, precário. Radical, mas  percuciente, elege uma causa primeira para explicar os efeitos danosos que vê na sociedade de seu tempo: a vaidade. Incapaz de gradações e imune à ponderação,  simplifica e  elege o amor próprio como o motivo  das  ações deletérias que seu olho flagra. Amizade é interesse. Renúncia aos bens terrenos é disfarce da vaidade. Gratidão é manobra hábil para se obterem novos favores. E assim vai, registrando tudo no gênero que estava então em alta na Corte francesa- as Máximas, também chamadas de Reflexões ou Sentenças. Sem nenhum sentimento cristão, diga-se de passagem: não há nenhuma alusão aos consolos da fé, aos favores de Deus, às possibilidades de salvação do homem.
 
O desencanto com o gênero humano, o olhar cáustico, o sentimento niilista, o agudo ceticismo  que resvala para o materialismo, poderiam tornar  seus escritos indigestos. Isso não acontece. Milagre da finura do espírito e de um estilo exaustivamente trabalhado para se mostrar conciso e palatável, as Máximas de La Rochefoucauld são geniais. Embora dissesse escrever para si mesmo, este estilista trabalhou exaustivamente a forma. As diferentes versões de seus  originais mostram como ele se empenhava em atingir a maior concisão de uma ideia numa expressão perfeita. Escrevia, primeiro, pequenas dissertações, e ia se desfazendo de elementos acessórios até chegar à essência do pensamento, comentando tudo em duas ou três linhas. Labor espinhoso e ingrato, pois bem sabemos como é desafiador resumir diferentes e complexos aspectos de uma ideia em meia dúzia de palavras. Com seu cunho  elíptico que  expressa  o apuro da arte clássica, as Máximas despertam  no leitor de todos os tempos, inclusive nos deste nosso século XXI, um sorriso de quem concorda com o que é dito e se admira da maneira como  é verbalizado. 
 
Se foi influenciado por Pascal e Montaigne, em cujas fontes bebeu, por outro lado influenciou dois outros filósofos – um do século XIX, o alemão Friedrich Nietzsche;  e outro  do século XX, o romeno Émile Michel Cioran. No capítulo 2  do seu célebre Humano, demasiadamente humano, pergunta Nietzsche:
 
"Por que não se leem mais os grandes mestres da sentença psicológica? -pois, sem qualquer exagero: o homem culto que tenha lido La Rochefoucauld e seus pares em espírito e arte é coisa rara na Europa; e ainda mais raro aquele que os conheça e não os insulte."  Vale como grande elogio. 

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