O que vivifica

Por: Maria Luiza Salomão

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QUE as nuvens me entendam! Já que eu, pedra ao sol, pouco sei. 

Sou visitada por hostis sentimentos, raivosos estados, e os espanto como posso, cantando, dançando, criando mágicas e aceitando assombros. Há que viver o que não sabemos que sabemos ( e o que não sabemos mesmo!)  e tentar afastar o que sabemos que sabemos e o que apenas pressentimos!
 
Sou visitada por amáveis sentimentos, amoráveis, gentis, amenos sentidos e significados que enchem meus olhos de azul e verde, de verde-azul-dourado, como o outono brasileiro. A poderosa Gratidão faz milagres de multiplicação e irradiância. 
 
Nobre e rara é a Amizade. Ela me faz cantar a solidão povoada; a ausência mais presente; a lembrança vivida do que se fez minha carne, meu espírito; é ela quem fabrica méis e ambrosias e me torna sutilmente apaziguada com todos os seres. 
 
Não sei contar os nomes dos meus amigos. Sei que tive muitos, e - com eles - sou o que sou hoje.  Em cada fase da minha vida apareceu quem precisava aparecer. 
 
Talvez amigos sejam anjos...
 
Muitos nunca mais eu vi, com esses meus olhos terrenos. De outros esqueci o nome, ou rosto, mas o aprendizado que do encontro com o amigo retirei tatuou a minha alma.  
 
A vida, no seu eterno remelexo, deslocou alguns para longe, muito longe da alma, mais do que longe do meu corpo.  Não importa isso, nem um pouco. Amigos passados estão comigo, são comigo, mesmo que nada saibam, mesmo que eu não saiba! 
 
O amor amealhado é todo meu, gratuito, livre, guardado como tesouro inviolável, mesmo que o amigo tenha me machucado para valer. 
 
Ninguém sabe, de antemão, sem viver intensa intimidade, o que um amigo pode provocar, evocar, suscitar... há tantos verbos crus e sutis que edificam e destroem belas e terríveis canções dentro da alma.  
 
Ninguém sabe, ou não iniciaria a amizade, por medo de sofrer a perda da maravilha encarnada que o amigo nos deixa entrever. Também não iniciaria a forte amizade por medo de sofrer o flagelo que só um grande amigo alcança poder, já que conhece fundo e até mais do que imagino ser.  
 
Ninguém adivinha, previamente, a potencial traição selvagem de um amigo. Ninguém sabe o deslumbramento que o amigo é capaz de oferecer. Ter amigos é aceitar extremos riscos.
Comprei uma pulseirinha feita de corda e de pequenos metais que repetem a inscrição em inglês: gratitude. 
 
Carrego-a no punho esquerdo, junto ao relógio, para ritmar meu trabalho. Relógio está virando peça de museu, todo mundo consulta as horas no celular.  Carrego a corrente de gratidão todos os dias, todas as minhas horas. Meus sonhos guardam a gratidão em bom lugar. Minha consciência, como as nuvens, é volátil, infiel, volúvel. A pulseirinha me pulsa a alma. 
 
Amigos são para se reverenciar. Devo a alguns a minha sobrevivência física e psíquica (saberão?). A alguns, pelo reverso, devo a aprendizagem da malícia e a percepção do Mal. A outros, devo a serenidade, a bondade e a alegria de crer no espírito humano. 
 
Creio que toco meus amigos, passados, presentes (e mesmo os amigos futuros que teimam em nascer em mim) através de misterioso meio. Eles me atingiram então, e me atingem ainda, e pressinto que me atingirão algum dia, ou talvez nunca mais (só aquela vez, quem sabe?)  
Pela vida que Amigos me oferecem, aceito a minha morte, a morte de um Eu empedrado, imutável, mumificável.    

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