Trem noturno para Lisboa

Por: Sônia Machiavelli

319310

Há silêncio e cinza na manhã em que Raimund Gregorius, 57, especialista em línguas clássicas, caminha para o liceu de Berna onde leciona. Pouco antes de chegar, vê uma mulher na ponte de Kirchenfeld ameaçando saltar para o rio. Num gesto rápido ele consegue evitar o gesto suicida. Antes de fugir, a mulher misteriosa balbucia algumas palavras ininteligíveis cuja musicalidade encanta os ouvidos do especialista. Uma dessas palavras é o gentílico “portuguesa”. Logo depois deste acontecimento insólito, ainda com o som da palavra “portuguesa” na memória, Gregorius  descobre numa livraria pequeno volume de fragmentos filosóficos  chamado Um Ourives das Palavras –  publicado em  Lisboa  em 1975 por um tal Amadeu Inácio de Almeida Prado. O professor suíço vê na coincidência algum sinal misterioso. Será o acaso um pequeno deus? 

O caráter vivaz do idioma da mulher anônima, reencontrado nas páginas de Amadeu, terá efeito catalisador sobre o professor de línguas mortas, homem taciturno e metódico que se divorciou há pouco tempo e leva vida tediosa. A descoberta dos sons desta língua que soa sedutora aos ouvidos acadêmicos o leva  a aprender os rudimentos dela. Recorre a dicionários para tentar  traduzir os textos de Amadeu, nos quais vislumbra ressonâncias de Fernando Pessoa na sua persona Bernardo Soares:  “Se é verdade que apenas podemos viver uma pequena parte daquilo que em nós existe, então o que acontece ao resto?” O interesse  linguístico-literário vira obsessão e, num impulso, o professor  decide abandonar sua classe  e partir para Lisboa no trem da noite. Vai  em busca do escritor  que reflete sobre temas que também o instigam nos últimos tempos: a velhice, a solidão, a morte, a amizade, o medo, a religião, o amor, a lealdade, a hipocrisia, a causa política.  E a força da linguagem.
 
Na capital portuguesa descobre que Amadeu, um jovem médico que lutou contra Salazar, morreu um ano antes da Revolução dos Cravos.  Contata um a um familiares, amigos e conhecidos, tentando compreender  pelo olhar dos outros o autor dos textos que espelham suas  angústias. O retrato que emerge é o de  um Amadeu  complexo e contraditório, agnóstico que não elidiu o sagrado e sublimou na escrita dilemas morais, frustrações amorosas e traumas familiares.
 
Ao recolher e cruzar informações e memórias alheias, Gregorius acaba por desvelar um Amadeu diferente  daquele narrado pelas  pessoas que lhe eram mais próximas: Adriana, a irmã que o idolatrava; Jorge O’Kelly, o melhor amigo; João Eça, o resistente revolucionário a quem torturadores da PIDE, a polícia dos anos de chumbo, arrancaram as unhas; Estefânia, a mulher que se interpôs entre Amadeu e Jorge. Rigoroso na análise, o professor suíço junta as peças no tabuleiro de xadrez  em que transformou sua busca – cartas não enviadas, sinais captados por fina percepção, segredos revelados por  vozes que já não suportam permanecer caladas- e compõe o perfil do médico-poeta. Logo em seguida, com a suspeita de um tumor na cabeça (em simetria com Amadeu, vítima de um aneurisma cerebral), Gregorius retorna  a Berna, num movimento circular que dá o que pensar. Enfim, à viagem terrestre  empreendida correspondeu  outra, subterrânea,  e ambas sacudiram a zona de aparente conforto onde tempo e espaço pareciam imobilizados.
 
Para o leitor de Trem noturno para Lisboa, terceiro romance do suíço  Pascal Mercier ( pseudônimo do filósofo Peter Bieri), fica claro que as peregrinações do protagonista por Lisboa, Coimbra, Finisterra e Salamanca revelam o antagonismo de duas personalidades. Enquanto Amadeu se desvela a cada novo achado como homem que elegeu a ação para dar um sentido à sua vida, Gregorius se revela um ser acovardado que fez opção pela apatia, pelo  silêncio, pela  morte em vida. Há um morto que permanece  pulsante nas lembranças e nos escritos.  Há um vivo que apenas  sobrevive ao se recusar a ser protagonista de sua existência.
 
O livro publicado em 2009 com grande repercussão na Europa é uma narrativa de temática metafísica, como se percebe.  Por conta disso foi surpresa  transformar-se  em best-seller e alcançar vendas superiores a dois milhões de exemplares no primeiro ano do lançamento. Os números e a qualidade do relato impressionaram o diretor dinamarquês  Bille August (duas Palmas de Ouro) que em 2013 resolveu adaptá-lo para a tela, reunindo um elenco estelar e multicultural:  Jeromy Irons, Jack Huston, Tom Courteney, Christopher Lee, Charlotte Rampling- todos ingleses; e outros como  a francesa Mélanie Laurent, os alemães Martina Gedeck, Burghart  Klausssner e August Diel, o suíço Bruno Ganz, a sueca lena Olin, o moçambicano Marco D’almeida, vários coadjuvantes e figurantes portugueses. À produção e ao enredo multinacional deveriam corresponder pelo menos alguns traços poliglotas- o que não ocorre e se tornou uma das maiores críticas ao filme, todo falado em inglês. Seja em Berna, Lisboa ou Salamanca, a língua anglo-saxônica é o padrão. Quando se sabe que a intriga é desencadeada exatamente pela súbita paixão de um professor suíço de línguas clássicas por um idioma desconhecido, o português, e pelo discurso literário de um autor lusitano, torna-se mesmo incompreensível a opção do diretor e roteirista. Por outro lado, Bille August  encontrou soluções engenhosas que soaram até mais verossímeis que as literárias. É o caso de colocar no bolso do casaco vermelho (esquecido na sala de aula  pela quase-suicida) o exemplar de Um ourives das palavras, deixando  entre as páginas um bilhete de trem para o trajeto Berna-Lisboa. Quanto ao final,  em aberto, permitindo muitas ilações ao espectador, é mais sugestivo que o do livro. Qualquer avaliação que se faça do filme será injusta se não destacar o desempenho dos intérpretes, perfeitos nos papéis  que lhes foram confiados. A começar por Jeromy Irons como o professor arrependido por não ter vivido em plenitude. O ator consegue traduzir em gestos às vezes mínimos a perplexidade do personagem diante do tempo que passa- e passa inapelavelmente; bem como a tristeza face à constatação de que não fez o que desejava de sua vida. Charlote Rampling, como a irmã apaixonada e obsessiva, hipnotiza o espectador nas poucas vezes em que aparece para dizer verdades que chocam. Sir Christopher Lee, então com 92 anos,  tem uma pequena  mas  terna participação como o padre de tendências socialistas- foi seu último papel no cinema.
 
Falar de livros que viraram filmes é seguramente comprar ingresso para discussão, pois haverá sempre os que discordam do nível da transposição, elegendo um ou outro como melhores. De minha parte, permaneço atenta ao fato de que cinema e literatura  são linguagens diferentes, e no caso de obras como a do cineasta dinamarquês, admiro a capacidade de condensar em 111 minutos de imagens uma obra que tem 460 páginas divididas em quatro partes bem delimitadas. 
 
Enfim, livro e filme tratam da dupla jornada de Gregorius  - a externa e a interna. Valem ambos, se você se preocupa com o uso que faz de seu tempo, a importância de ouvir seus desejos,  o valor que confere à amizade, o tipo de história que um ser humano pode escrever se enfrentar ( e vencer)  a apatia. Línguas mortas não promovem diálogos, ainda que tenham prestígio- como o grego e o latim. Línguas vivas podem mobilizar a sintaxe de nossa alma, e quando isso acontece, nada nos segura, o trem nos leva para uma viagem que poderá  nos modificar para o resto de nossas existências.  

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras