Chutes

Por: Luiz Cruz de Oliveira

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Não há originalidade no meu pontapé inicial.

A torcida pró e a torcida contrária já sabem, de antemão, que valorizo sempre o time que objetiva resgatar a memória de minha gente e de minha terra. Sabem também, de há muito, que busquei, incessantemente, preservar a história das equipes de Franca e dos homens humildes que foram ídolos meus e de tantas e tantas crianças: Garito, Tonho Rosa, Brim Coringa, Padreco, Milton Raimundini, Aires... Muita gente não desconhece que foi nos campos de nossa várzea que garimpei inumeráveis amigos e ídolos.
 
Reflexões tais me vêm a propósito do livro Veterana do além, de Mauro Ferreira, o qual acabei de ler.
 
O trabalho desse escritor francano me trouxe um misto de espanto e amargura.
 
O espanto e a amargura decorrem do que me parece indiferença atualmente pelo esporte que preencheu a infância e a juventude de milhares de pessoas de todas as classes sociais. Além de proporcionar prazer, o futebol ensinou, a muitos, disciplina e respeito por adversários.
A mim, ensinou-me a ganhar e a perder com dignidade.
 
Não há como especular intimamente sobre a trajetória histórica, em nosso país, desse esporte que chegou com a elite e passou a popular, revelando talentos em técnica e arte que encantaram o mundo, mas que hoje me parece rejeitado tanto pelas elites como pelo povo. Isso ocorre talvez porque a elite não queira saber do que considera conspurcado e, o mais trágico, porque o povo não quer ser povo, embora não saiba o que é ser povo.
 
Reflexões à parte, reitero que tudo isso me vem em decorrência da leitura do novo livro de Mauro Ferreira, também um apaixonado pelo futebol, pelas coisas de nossa terra, pela Associação Atlética Francana. Por isso, nesse trabalho, resgata a lembrança de muitos jogadores, resgata parte importante da história esportiva de Franca e região. Abre, assim, frestas para os interessados nos caminhos e descaminhos, na ascensão, na glória e na derrocada do esporte das multidões.
 
Mauro Ferreira executa seu trabalho com recursos que somente a literatura proporciona: abolindo as barreiras temporais e espaciais. Assim armado, vai empurrando o leitor para os intrincados caminhos “bolíticos”, adubados pelo provincianismo interiorano, resultando o todo em painel impagável de nossa história. 
 
Entendo que Veterana do além é um livro para ser amado ou odiado. Não raro, suas páginas convidam para o riso, mas não convidam para a risada escancarada.
 
Creio até que convida ao riso triste dos que não conseguem apenas se divertir com a história humana.

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