UM ÁLBUM EM PRETO E BRANCO

Por: Angela Gasparetto

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O armário agora é recém pintado na cor gelo.

Os seus puxadores foram restaurados e mantêm o mesmo modelo antigo. 

O quarto também foi restaurado, as camas velhas desmontadas, as roupas doadas, e os objetos pessoais guardados no baú velho do quarto dos fundos.
 
Agora tudo renovou, o cheiro antigo se esvaiu e o quarto após a reforma foi destinado a mim.
Relutei muito em aceitá-lo por motivos os mais diversos, mas principalmente porque não me julgava digna de me apossar dele.
 
Para dizer a verdade, levei alguns  anos para um dia deitar e dormir uma noite inteira nele. 
Agora é meu quarto, com objetos novos, a poltrona vermelha decorativa, cama e colchão novos, gravuras de Paris e como objeto de decoração, diversas corujas as quais são as minhas preferidas.
 
Ali deitada, olho para o teto e para os lados. A noite ainda cercada por medos antigos, fantasmas infantis, só durmo com uma luminária irritante que à meia luz  clareia o breu de um quarto que sinto ainda não me pertence.
 
Quando o adentro, caminho pelos seus tacos de casa antiga, abro a sua janela fora de moda, sento-me na nova cama e aspiro o ar que agora só tem o meu cheiro. 
 
Mas hoje, de repente, abri o seu armário antigo,  aquele pintado de gelo, de madeiras de lei do passado e das gavetas profundas, como não se faz mais no mundo  atual de espaços restritos.
Arrumando as toalhas e abrindo mais espaço para me instalar com o conforto do quarto alheio, abri uma das últimas gavetas e de repente achei um álbum de fotos antigas.
 
Sentei-me na cama e comecei a folhear este álbum amarelado que trazia o cheiro das antigas proprietárias deste quarto.
 
Então,  de repente, a vida delas aos poucos veio me passando pelos olhos naquelas páginas  em preto e branco.  As roupas anos 40, os cabelos à Rita Hayworth, os scarpins de bicos finos, os vestidos à Grace Kelly, as amigas de braços dados caminhando na Av. Paulista dos anos 50.
Eu também as vi de maiô em São Vicente em um passeio com vários amigos; as vi posando em cima da pedra na praia de Santos, sorrindo deitadas na areia e abraçadas com um amigo ou namorado, não sei ao certo. 
 
Eu as vi, eu vi a sua juventude feliz, a sua beleza intacta, a esperança no olhar. E principalmente, a ignorância do futuro a que todos estamos destinados.
 
Fechei o álbum de coração perdido. Porque me lembrei de que as vi depois velhinhas e doentes neste mesmo quarto que agora eu ocupo. 
 
Eu as vi sofrer as dores da velhice e até mesmo da solidão, que é o pior dos males da vida. Solidão de pessoas e principalmente da compreensão das pessoas.
 
Então, com o coração apertado, voltei mansamente o álbum para a gaveta do fundo e o guardei com carinho. 
 
Não sei se tenho o direito de usar este quarto que me designaram, mas se o álbum foi o único objeto não destruído na alucinada transição desta vida, é porque este ambiente ainda pertence a elas, e eu o usarei com respeito  devido, procurando trazer para este quarto um pouco daquela alegria juvenil que levaram em vida.

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