“Um dos livros mais importantes do século XX”

Por: Sônia Machiavelli

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Em 1945 uma garota de 15 anos morreu de tifo no campo de concentração de Bergen-Belsen, três semanas antes da libertação. Ela deixou atrás de si, no esconderijo que havia dividido em Amsterdam com pais, irmã e mais quatro pessoas, um diário. O seu diário. O diário de Anne Frank.

Em janeiro de 2016, 70 anos após a morte da autora, cumprido o tempo das exigências legais, este diário entra em domínio público. Ele pertence, mais do que nunca, à humanidade. Ele é de todo leitor que o tenha sob olhos num dos 37 idiomas para o qual foi traduzido em 60 milhões de exemplares. Cabe a cada um mensurar a sua importância. Como texto e testemunho; pelo que permite nunca esquecer em relação ao abominável genocídio; por sempre lembrar que autoritarismo e sectarismo caminham juntos para a desumanização.

Anne Frank nasceu em 1929 na Alemanha, numa família que fugiu do país quando Hitler chegou ao poder, em 1933. Em Amsterdam, para onde os Frank se transferiram, ela levava uma vida alegre, com muitos amigos e passeios. Mas em 1940, quando os nazistas ocuparam a Holanda, a escalada do antissemitismo chegou a níveis insuportáveis. Em 1942, Margot, a irmã mais velha, recebeu a temível intimação para comparecer ao Escritório Geral de Imigração Judia. Todos sabiam que se ela fosse, não voltaria. Decidiram então se esconder no Anexo do Armazém Opekta, que havia pertencido ao chefe da família, Otto, próspero empresário. Na iminência de ter seus bens confiscados pelos nazistas, vendera seu negócio para amigos alemães- Kluger e Kleiman. Serão estes, auxiliados pelas secretárias Miep Gies e Bep Kujiil, que, arriscando as próprias vidas, manterão escondidos no Anexo os oito judeus, levando-lhes alimentos, remédios, jornais, notícias do mundo exterior.

Oculto por uma grande estante que não permitia imaginar a existência de vários cômodos atrás de si, o Anexo foi por mais de dois anos o lar dessas pessoas. Era na verdade constituído por dois andares e um sótão onde os núcleos - os Frank (Otto, Edith, Margot e Anne), os Van Dann ( pai, mãe e filho adolescente) e um dentista de 50 anos, Albert Dussel, se distribuíam. Viviam da esperança de que a guerra logo chegasse ao fim e eles fossem libertados. Não tinham direito de sair à rua, de fazer ruídos durante o dia, de olhar pelas frestas das janelas, de sequer usar banheiro e dar descarga no horário comercial, pois a região era densamente povoada. A descoberta dos clandestinos representaria prisão imediata, julgamento sumário e envio aos campos de concentração. Isso de fato aconteceu na manhã do dia 4 de agosto de 1944, quando a polícia nazista chegou ao esconderijo depois de receber denúncia anônima.

Todos foram presos, à exceção das secretárias Miep e Bep. Kluger e Keiman, que não eram judeus, cumpriram anos atrás das grades. Os Frank, os van Dann e Pfeffer foram levados a Auschwitz. As mulheres, conduzidas a Bergen-Belsen. De todos, só Otto escapou com vida. Assim que o campo onde estava foi libertado pelos Aliados, ele retornou a Amsterdam. Soube então que sua mulher e filhas haviam morrido e que depois da prisão do grupo, Miep encontrara no chão do Anexo muitas folhas manuscritas que haviam escapado do diário de Anne. Otto começou a lê-las e para ele isso significou uma revelação; conscientizava-se de que não conhecia tão bem sua filha como imaginava. Hesitou em publicar, embora Anne expressasse este desejo (e o de ser escritora e jornalista) em várias páginas. Ao pai incomodavam as críticas ferinas da filha à mãe e também seus comentários adolescentes sobre a própria sexualidade.
No Anexo, todos tinham ouvido falar daquele diário referido pela menina várias vezes. Anne o recebera do pai no dia de seu aniversário de 13 anos, três semanas antes da clandestinidade. Havia um cadeado para manter a privacidade, e isso a encantou. Entrou logo em ação: “ Escrever um diário é uma experiência realmente estranha para alguém como eu. Não somente porque eu nunca tenha escrito algo antes, mas também porque tenho a impressão de que nada do que uma garota de 13 anos escreva irá interessar mais tarde para mim ou outras pessoas.” Que colossal engano!

Nos dois anos de clandestinidade, seria nele, a quem chamaria de Kitty, que ela fixaria não apenas suas angústias, alegrias e dúvidas de garota que vê seu corpo e sua mente se transformando. Também seu espanto, seus medos, suas crenças e, o que é admirável no contexto opressivo em que sobreviveu, sua fé na vida: “ É difícil em tempos como estes que ideais, sonhos e esperanças permaneçam dentro de nós, sendo esmagados pela dura realidade. É um milagre eu não ter abandonado todos os meus ideais. Eles parecem tão absurdos e impraticáveis.”

Mais adiante, pouco antes de o esconderijo ser invadido pela polícia nazi, ela avalia: “Eu não penso sobre toda a miséria, mas sobre a beleza que ainda permanece.” Esta frase é uma das várias que, no último terço do diário, revelam o surpreendente amadurecimento de Anne como ser humano. Sua busca pela verdade é profundamente comovedora. Dotada de extraordinária honestidade intelectual e emocional, tudo registra, ainda quando fatos e emoções que a afetam não sejam exatamente aqueles que elevem e sim os que, a olhares desavisados, rebaixem o ser humano. Ela tem coragem de confessar, por exemplo, sua relação conflitante com a mãe, a quem em certo momento diz desprezar. Meses depois, relendo as palavras duras, escreve um adendo onde se confessa envergonhada por ter usado tal verbo. E argumenta que se o relacionamento das duas era difícil, por certo isso se devia “a ambas as partes”. Também quanto à irmã, de quem se mantinha afastada por julgá-la superficial, o sentimento muda durante o confinamento e ambas chegam próximas no trágico final.

Torna-se evidente, já nas primeiras páginas do diário, que Anne tinha enorme talento para a escrita. Leitora voraz, aficionada por História, cinéfila desde muito pequena, curiosa pelo noticiário da guerra, franca e direta nas abordagens, dona de um senso de humor singular (aquele humor judeu que levou o romancista Phillipe Roth a dizer que ela era “a filhinha perdida de Kafka), já estava instrumentalizada para a escrita criativa desde que fora alfabetizada, o que aconteceu de forma precoce, como à sua irmã. Ambas eram muito estudiosas e mesmo habitando um lugar que muitas vezes fedia porque os canos do único banheiro entupiam; mesmo quando a comida escasseava de tal forma que só havia alface para se alimentar; ainda que os humores do grupo se deteriorassem e conflitos aparecessem com frequência, Anne e Margot jamais pararam de buscar conhecimento. Tinham suas tarefas domésticas a cumprir, como os outros, mas organizavam seu tempo para estudar inglês, francês, história, álgebra, matemática e taquigrafia; ler romances românticos e clássicos da literatura; escrever cartas e bilhetes- pois durante o dia quase não podiam falar, só sussurravam. E ainda criavam poemas com que homenageavam os aniversariantes. Este é um detalhe do diário que pode levar os mais sensíveis às lágrimas. Durante todo o período de confinamento, nas piores condições, os aniversários de todos foram comemorados, numa afirmação enérgica e poética da existência. Havia o bolo feito com “a horrível farinha grudenta.” Os presentes eram aquilo que cada um conseguira economizar durante o mês- torrões de açúcar, saquinhos de chá, rara fruta fresca, acompanhados dos aludidos poemas, de um desenho, de uma canção. Em seu último aniversário, o de 15 anos, no dia 12 de junho de 1944, Anne ganha de Peter van Dann (o adolescente com quem experimenta jogos eróticos e amorosos, mas que a decepciona), “um pequeno buquê de peônias”.

Considerado pelo New York Times “memorial valioso para a humanidade”; pelo Guardian, “um dos livros mais importantes do século XX”; pelo ficcionista Václav Havel, “legado vivo e símbolo contra a intolerância”; pelo historiador Ilya Ehrenburg, “uma voz que fala por seis milhões”, o diário de Anne Frank não recebeu acolhida imediata das editoras. Otto Frank perambulou por muitas delas que o recusaram. Até que um artigo do jornalista Jan Romain, publicado no dia 3 de abril de 1946 no jornal holandês O Farol, chamou grande atenção para o diário de Anne, ao dizer que ele “pela voz de uma criança, incorporava toda a hediondez do facismo, e falava mais alto do que todas as provas reunidas por Nuremberg”. A primeira edição saiu pouco depois, em 1947, com o título escolhido por Anne, Het Achterhuis, algo como Anexo Secreto. Ela ouvira no esconderijo, numa das raras emissões de rádio, em março de 1944, as palavras de Gerrit Bolkestein, ministro da educação que fazia parte da resistência holandesa. Ele aconselhava todos a registrarem por escrito suas experiências de guerra para que elas se transformassem em documento no futuro. Anne, que vinha escrevendo desde junho de 1942, animou-se muito com a sugestão e passou a editar seu diário, que pretendia ver publicado quando a guerra acabasse. Seu trabalho se encerra no dia 01 de agosto, quando faz sua última entrada, uma reflexão sobre a (des) integração de vários aspectos de sua personalidade.

Este diário original se encontra intacto na Casa de Anne Frank, no centro de Amsterdam (Prinsengracht 263-267). É o mesmo lugar onde Anne permaneceu reclusa de 06 de julho de 1942 a 04 de agosto de 1944. Os cômodos abertos à visitação lembram o trágico período, com móveis e acessórios cedidos por Otto no ano de sua inauguração, em 1960. Estrutura, acervo, objetos continuavam bem conservados quando lá estive há 15 anos. Documentos históricos, fotografias e pequenos filmes contextualizam o relato de Anne. Fotos de artistas que ela colou na parede do quarto que dividia com o dentista permanecem nos olhando. Mas o que mais moveu meu espírito foi ver ali as marcas que Otto fazia numa parede para medir o crescimento das filhas. Nos dois anos e cinquenta e um dias em que esteve lá, Anne Frank tornou-se 15 cm mais alta. Quanto à sua amplidão psíquica, esta foi imensurável.
 

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