“A arte de viajar”

Por: Maria Luiza Salomão

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O que gosto, na viagem, está no antes, no durante e no depois, como um bom intercurso sexual.

ANTES, a viagem está no “estado de miragem”, onde tudo pode acontecer. O problema grave do antes está nas escolhas dos destinos possíveis que caibam no bolso da alma. A viagem começa destinada pelo desejo.

DURANTE, a viagem está no “estado de alerta”. Mil olhos, mil ouvidos, insone e inteira, acordada, totalmente no lugar, com quem quero, seguindo a corrente do que não sei, não conheço, não controlo. O problema grave no durante é a atenção.

DEPOIS, a viagem está no “estado de memória”. Pestanas fechadas, as lembranças são sonhantes, na fronteira do aqui e lá, do agora e então. Na fronteira do sei/ não sei mais; sabia/não sei; não sabia/sei; não sei/ não sabia.Há sempre muito mais “depois” e “antes”, do que “durante”, me parece.Não estamos acostumados a lidar com o agora já. Não fazemos o agora durar...não temos suficiente lenha para a fogueira, nem provisionamos estoque de festejos e lágrimas para o instante, para o “é agora”.

Erro de cálculo do que não tem cálculo.

Tudo o que fazemos, pensamos, sentimos deságua no “agora”. Agora a presidente caiu, e depois? Agora perdi o emprego, e depois? Agora acabou o namoro, e depois? O que fiz para a queda, a perda, o conflito, a guerra, a paz, o ódio, o amor, a disputa, a solidão, a solidariedade, especificamente, para o particular e único agora?

O agora é feito de muitos “antes”. De muitos “agora” rematados. De muitos “já” cruzados-atravessados-transpostos-rematados. De novidades e repetições embaralhadas é feito o agora. A confusão determina a duração do agora: sentir o instante longuíssimo ou rápido demais. Depende da disposição para sentir este particular e específico instante que dura o quanto se está pronto para ele.

Mas o depois - é preciso sempre lembrar - depende da minha vivência do agora, do agora/já. De quanto acalentei a vinda do instante, de quanto me dispus a devir permeável, flexível, aberta, disponível para o que este pequenino espaço-tempo. Se há capacidade de orquestrar acontecimentos vividos – sejam eles traumáticos/suaves/turbulentos/ catastróficos/ harmoniosos/ solitários/ empáticos.

E agora, José? Pergunta sempre o poeta, qualquer poeta, para o antes que passou e para o depois que virá.

Eu digo: agora, sinta alguma coisa!

Sentir alguma coisa já é um pouco de...tudo!

Sentir alguma coisa é resumir o “antes” que fui e sentir quem posso ser “depois”.Sentir é uma grande viagem. Talvez a única viagem não permutável com ninguém, e que depende exclusivamente de quem sente o que sente e como sente o que sente.

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