“Ser mulher: uma jornada mais que dupla”

Por: Sônia Machiavelli

320709
Tive o privilégio de conversar há três semanas com a jovem jornalista Carolina Rodrigues, recém-formada pela Unesp, campus de Bauru.  Depois de concluído o curso, ela fez duas  viagens ao  Exterior- uma ao Chile, outra ao Canadá, para aperfeiçoar-se em línguas estrangeiras e ampliar seus conhecimentos na área da comunicação. De personalidade marcante, afável  no trato mas  firme nas opiniões, Carolina deixou-me a impressão de que vai trilhar uma carreira para a qual vem se preparando faz tempo. Seu especial gosto pelas  palavras e imagens é perceptível  desde a escolha dos termos com que verbaliza seus relatos, sentimentos  e propósitos numa conversa descontraída,  até a  publicação independente com a qual me presenteou e cujo título é este em epígrafe. 
 
Trata-se de texto editado de sua tese de conclusão de curso. Surpreendeu-me  pela ausência dos jargões acadêmicos que, muitas vezes, tornam  a maioria das páginas deste tipo de publicação  entediante e mesmo ilegível  para leigos. Com amplo domínio do léxico e da sintaxe, Carolina desenvolve um discurso rico e elegante, onde  pinceladas estéticas conferem ao tema  uma coloração literária que torna  a leitura apetecível e estimuladora de reflexões. Torço para que se transforme em livro a fim de que possa, como aconteceu comigo, inspirar muitos outros  leitores. 
 
O objetivo  da publicação, nos revela a autora na sua apresentação / ensaio sobre conceitos de feminino e feminismo, “é trazer exemplos reais de mulheres que lidam, cada uma à sua maneira, com essas questões de poder, dominação masculina, machismo e opressão. Mulheres que conquistaram seu espaço, apesar de todas  as dificuldades”. Para estruturar a pesquisa,  “definiram-se três linhas de delimitação para a escolha das personagens: geracional, de classes sociais e de raças. Além disso, procurou-se explorar as várias instâncias da sociedade: a mulher na política, na cultura, na educação, no campo, nos movimentos sociais, no mercado de trabalho. Etc.”
 
São seis as mulheres que Carolina entrevistou depois de um processo nem sempre fácil de aproximação. Usando nomes fictícios, ela traz à cena relatos de mulheres cujas existências  foram marcadas por constantes desafios, com muita luta precedendo as superações e os sucessos que nunca  chegam por acaso. Especialmente  numa sociedade  brasileira ainda marcada pelo machismo, que “está inserido em um sistema que é mais amplo, fundamentado pelo capitalismo e pelo patriarcalismo, e nele se legitima”. Mas, como complementa Carolina, “quando a mulher enxerga essas questões e se torna consciente do machismo opressor presente na nossa sociedade, ela se empodera.” Este verbo, empoderar, muito usado nos textos onde surgem as reflexões  sobre questões de gênero, “vem do inglês enpowerment e está relacionado com a possibilidade de emancipação individual e também coletiva”, explica a jornalista. 
 
Olívia, 64, a mais velha das entrevistadas,  preside uma associação de moradores e luta há anos por melhorias para sua comunidade. Ivete, 54, depois de viver em assentamentos, ergueu a duras penas  sua casa e construiu  um poço artesiano. Ana Cláudia, 44, aplicou-se muito aos estudos e teve de se deslocar por diferentes cidades antes de  ocupar o cargo de juíza do trabalho; atualmente  planeja sua promoção para desembargadora. Regina, 41, professora de curso de Relações Internacionais , vem de família simples e entre seus sonhos de  pessoa que se dedica à ampliação constante do conhecimento, está um doutorado fora do País. Djamilla, 34, mestranda em filosofia política, se afirma  feminista  negra que cresceu  com consciência racial e começou a graduação aos 27 anos, já casada e com uma filha. Gabriela, 30, é coordenadora de programação do SESC e, com poucos meses na função, engravidou e teve de aprender a conciliar casa e trabalho, de um jeito que lhe pareceu bastante complicado no início. 
São seis histórias que podem tanto comover quanto orgulhar quem as lê e reconhece nelas traços, detalhes, características  ou mesmo essencialidades de outras narrativas onde as mulheres brasileiras protagonizam suas próprias  vidas. 
 
 A importância e a beleza do trabalho de Carolina Rodrigues repousam sobre um tripé construído pelo feeling na busca dos perfis;  pela linguagem factual de traços  literários; pelas imagens  perseguidas com sensibilidade e fixadas em momento único.  Ao chegar à última página  me lembrei  do new journalism ,  aquele gênero  que surgiu nos EUA nos anos 60 e teve como um de seus expoentes Truman Capote e GayTalese, que do novo jeito de reportar disse o seguinte: “embora possa ser lido como ficção, não é ficção. É tão verídico como a mais exata das reportagens; e permite, na verdade exige, ao lado de uma abordagem mais imaginativa, uma apuração acuradíssima dos acontecimentos.” 
 
De fato. Para escrever  A sangue frio, Capote fez uma pesquisa de cinco anos que  resultou em mais de oito mil páginas de anotações. Para escrever sua tese, imagino que Carolina Rodrigues levou muitos meses de observação e outros tantos de apuração para chegar a um nível de entrevista que enobrece o gênero e o próprio jornalismo. 
 
Não poderia finalizar essas considerações sem registrar algo que me tocou profundamente nesta obra. Trata-se da escolha das mãos femininas como alvo da lente fotográfica. Mãos se apoiam no recorte azul da casa construída com extrema dificuldade. Seguram uma foto antiga de galpão feio e árido. Exibem unhas pintadas e seguram lápis. Usam aliança e se lavam em água de torneira precária. Seguram xícara de chá sobre pires. Elevam-se à  altura dos olhos para reforçar com o gesto uma afirmação. Cruzam-se serenas sobre a superfície de uma mesa. Seguram óculos num momento de repouso. Colocam-se para trás em posição assertiva. Pousam charmosas sobre os quadris, deixando à vista o crachá de identificação de trabalho. Mãos femininas. Mãos poderosas. Mãos que podem mover mundos. Quem disse que o fático não pode ser poético?

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