Prisioneiro

Por: Luiz Cruz de Oliveira

320710
O mar está condenado à prisão perpétua.
 
Admira-me que, depois de tanto e de tudo, persista indomável e ainda se rebele com o vigor de sempre. Encapela-se, brame, ruge, grita e chora e arremete toda a sua fúria líquida contra as grades.
 
As tentativas de libertar-se são vãs, e os fracassos se reiteram.
 
Nos arrecifes – lâminas pontiagudas – ferem-se mãos e pés. Nas muralhas de pedra, seu rosto se esfacela e suas lágrimas, arrastadas pelo fluxo e refluxo de suas entranhas machucadas, restarão salinas em sua pele, em algum lugar de seu corpo.
 
Nas praias, não há pedra nem ferro. Mas a grade se revela sutilmente mais ferina, porque a areia beberica a energia do colosso, e ela se exaure. Assim como se fossem raízes de sol, as margens sugam ímpetos.
 
E o mar, coitado do mar, por alguns instantes, resta fera frouxa, lassidão só, estendida ao lado das grades.
 
Frustrada a tentativa de fuga, sobrevém castigo rígido. 
 
Mão do imponderável maneja borrascas que lhe chicoteiam as ancas, arrancando-lhe gritos lancinantes. Ao mesmo tempo, das profundezas do infinito, braços escuros brincam e se comprazem inventando torturas. Cutucam-lhe o corpo com faíscas elétricas.
 
A dor é tamanha que o mar tenta levantar-se do leito, subir ao céu.
 
Mas o céu está longe, muito longe.

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