Eterno Café do Théo

Por: Isabel Fogaça

320908
Uma das minhas coisas favoritas na vida é visitar os cafés tradicionais de Franca. Chego, adequo minhas juntas em uma daquelas cadeiras que se parecem com a mobília que minha avó usa desde a época que eu era bebê, pois gosto de ouvir e observar os velhinhos presentes no local, enquanto alguns olham o jornal, outros fazem piadas com mesma malícia de 1960. Entre todos os outros, amo ir ao café do Théo, aquele lugar traz o aconchego, a felicidade, além do cheiro ser sua mais valiosa publicidade. Às vezes, apressada, passo em frente ao café e o Théo me chama: “Bel, vem cá. Você aceita experimentar uma rosquinha que acabei de fazer?” E como negar um carinho desses?
 
Nessa semana, depois de muito tempo fora, decidi visitar o café do Théo. Cheguei, pedi um café e enquanto esperava, sentei-me ao lado dos velhinhos escutando o que eles tinham para dizer sobre a política brasileira. Penso que alguns daqueles homens são professores de história sem nunca terem feito uma faculdade, outros falam como economistas daqueles que assistimos no jornal, e ainda existem os sábios e os poetas que terminam as frases como grandes conhecedores do assunto, de um jeito tão profundo que tiram um sorriso do canto da boca da gente.
 
Finalmente meu café chega até à mesa, mas desta vez não é o Théo que vem trazer. Procuro-o dentro do local e penso que deve estar assando um bolo muito gostoso, como de costume. Enquanto isso, passo meus olhos nos jornais empilhados no canto do freezer e lembro-me das vezes que carinhosamente o Théo separou o caderno Nossas Letras do Comércio para mim, fazia isso desde que descobriu que eu estava arriscando umas crônicas semanais.
 
Tomo meu café, e vou até o caixa e pergunto com grande expectativa ao moço que cobra o meu pedido: “O Théo está por aqui?”. Ele responde: “Meu tio Théo vendeu o café”. Fico assustada, afinal, o Théo sempre amou aquilo que fazia, e mesmo algumas vezes adoentado nunca deixou de trabalhar, portanto pergunto: “Mas como está à saúde dele? Ele está bem? Feliz?” E o menino responde: “Está tudo bem sim!” com um sorriso largo no rosto. Meu otimismo me faz acreditar que sim, o Théo está bem, e por algum motivo fez esta escolha. Olho para a parede ao lado do caixa e a foto dele ainda está ali pendurada num porta retrato de madeira, como da primeira vez que visitei seu café. Ao lado da fotografia um papel que diz “Deixe um café suspenso a alguém!” e foi assim que nos conhecemos, tomei meu café e deixei mais um pago para uma próxima pessoa desconhecida que por algum motivo não tivesse condições de pagar, e pela empatia nos tornamos amigos naquele dia. Théo, no que você estiver fazendo hoje, eu desejo sua felicidade. 

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