quando eu mudar de palco

Por: Luiz Cruz de Oliveira

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Quando eu parar de cantar aqui, a guarânia, o samba, o bolero guardarão um minuto de silêncio. O tango ficará emudecido por um momento, e o silêncio aspergirá notas trágicas nas rubras franjas do bandonion.

Quando eu parar de cantar aqui, as luzes da ribalta lucilarão por algum tempo. A platéia, alheia às nuances do espetáculo, impulsionada pelo temor do vexame, se dividirá entre o apupo e o aplauso.
 
Quando eu parar de cantar aqui, donos de gaiolas continuarão estúpidos, e os ipês continuarão a florir primavera roxa, amarela e branca. O beiral da minha casa continuará a substituir a paineira e a mangueira, acolhendo pardais, sabiás e rolas cujos arrulhos lembrarão amores de homens e de bichos. 
 
Os mesmos cegos continuarão a pisar a grama de jardins, a matar brotos de roseiras.
Ainda haverá sombras, sempre que houver sol. 
 
Mas, quando eu deixar de cantar aqui, alguém construirá momentos de silêncio, matutando que tudo será nada porquanto fui compor e cantar canções diferentes, lá na outra banda do rio.
Inobstante a presença, a solidariedade e a voz de tantos, permanecerá surdo a todos os ritmos – alheamento absoluto.
 
Então se sentará lá no meio do córrego, na pedra mais saliente, e deixará a água escorrer pelos pés descalços.
 
E a água e a pedra molharão seu coração quando eu não mais cantar aqui.

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