De palavras e poiêsis

Por: Eny Miranda

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Dia desses me pego divagando, enredada nas espirais das palavras “alegria” e “felicidade” (na verdade, pensei em escrever “enredada nos labirintosdas palavras‘alegria’ e ‘felicidade’, mas optei por espirais, que, tolerantes, se abrem por si mesmas ao infinito). Isso me veio depois da lembrança da música Tudo é Magnífico, interpretada por Elizeth Cardoso, A Divina, em que o autor reflete sobre situações envolvendo os vocábulos “magnífico” e “formidável”: “(...) Magnífica é a lágrima calma, que tantos segredos contém;/ magnífico é o homem do espaço, voando no céu de ninguém./ Formidável sou eu, que abraço no espaço a saudade de alguém,/ formidável sou eu esperando, sabendo que você não vem.” E essas quatro palavras me envolvem, e reflito sobre elas, e abraço-as no espaço, sabendo que nunca se abrirão inteiramente aos meus olhos, nem aos meus anseios; que nunca virão livremente ao meu encontro.

E como não há limites para o cérebro humano, como suas malhas tecem, aleatoriamente ou não, infinitas redes de infinitos pontos que ora prendem ora alforriam, tanto alegria e felicidade quanto magnífico e formidável ganham o espaço e se perdem no céu de ninguém. Então, o pensamento voa para outras paragens, vê outros céus, e me traz o desejo de escrever um poema.

Aí, as malhas criam vida, alças fazem-se laços que me circundam, e se estreitam, e me sufocam, afrouxando-se a seguir, para a indispensável lufada de ar, e voltam a me prender, justos, firmes, angustiantes, porque os pensamentos já não são completamente livres, leves, etéreos; ao contrário, devem ser desviados para uma parte física, ir às mãos, e daí à pena, e à tinta que desenha arcos e traços no papel, consubstanciando-se em nexos gramaticais, em sintaxes e perfis literários que ficarão gravados na folha, na tela, nas mentes... o que pesa no ato criador. E assim me quedo, ansiosa e esperançosa, até que, finalmente, me permito abrir as asas e voar.

Outros espaços, novas cores, cenários diferentes me recebem. Volto a pensar em alegria e felicidade, em magnífico e formidável, agora com outros contornos: “Vê, estão voltando as flores;/ vê, nesta manhã tão linda;/ vê como é bonita a vida;/ vê, há esperança ainda.” Penso em amplos azuis, em coloridos pores do sol, em barcos voltando a salvo de uma tormenta... penso em crianças saindo da escola e seguindo para as suas casas, sorridentes - gente construindo seu futuro em um país livre de medos e de ameaças; a salvo da miséria, da violência e do ódio: “Vê, as nuvens vão passando;/ vê um novo céu se abrindo;/ vê o sol iluminando,/ por onde nós vamos indo.”

E retornam-me a alegria, a felicidade, o magnífico e o formidável, não como vocábulos, mas como sensações verbais; não como germens, mas como esperança de poesia consignada.

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