Conexões

Por: Isabel Fogaça

321407

O mérito em possuir uma graduação num curso de humanas e trabalhar de garçonete nos finais de semana são as relações cravadas com as pessoas. Quando você veste o avental, ninguém mais sabe quem você é, qual seu posicionamento político e muito menos o que você pensa. Afinal, muitas vezes, o garçom é o ser invisível, aquele que atende pedidos e nada mais. Mas da nossa perspectiva há a doçura, o mistério e a fúria de comparar as relações com aquilo que se leu, ser garçom é a práxis.

O homem humilde que trabalhou o dia todo lidando com o chefe opressor, chega ao bar tratando o garçom com autoridade. Ele quer demonstrar que possui poder de alguma forma, carrega o fardo por querer ser o chefe em algum momento de sua vida. Neste caso, como não se lembrar de Marx?
 
A moça que assume o cabelo crespo e o batom vermelho que de tão bonita parece uma música do Alceu, conta às amigas sobre o fim de um amor doloroso e recita empoderamento como se um passarinho saísse de sua boca. Como não se lembrar da força e da doçura de Frida e Simone?
 
A mãe que grita com o filho dentro do bar, não permite que o menino fale, brinque, se posicione. A tristeza me corre à garganta, pois me lembro da liberdade que meus pais me permitiram na infância e que na graduação pude ler nos livros de Rubem Alves e Paulo Freire.
 
O fato de ser garçom deveria valer um diploma, deveria servir como estágio e contar horas nas atividades acadêmicas, mas se fosse obrigatório perderia toda a graça e doçura da pesquisa de campo feita com o coração. Assistimos tudo, pensamos nas relações e cravamos ligações com aquilo que conhecemos dentro de nossas respectivas realidades. Por isso, costumo dizer aos meus colegas que ser garçom é conhecer as pessoas verdadeiramente. E como não se apaixonar por uma ferramenta dessas?

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras