Muito além dos zumbis

Por: Sônia Machiavelli

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Na ficção literária zumbis são criaturas hostis aos homens, de cuja carne se alimentam  depois de os alcançarem  guiando-se apenas pelo olfato e som. O conceito que oferece inúmeras representações na cultura popular tem sua gênese na década de 1950 no âmbito das HQs. Popularizou-se nos últimos sessenta anos, através de filmes, livros, quadrinhos, games e outras mídias- entre elas, as séries produzidas com exclusividade para  canais como Netflix, que oferecem serviço  de streaming. Assisto no momento a uma delas, The Walking Dead. Nunca imaginei que fosse me sentir atraída pelo tema dos mortos que caminham. Mas de repente meu filho Junior me falou dela com tal entusiasmo, e  percebi tantos colegas e amigos comentando a respeito, que fui checar. E gostei. 

 Estou na quinta temporada, ávida pelos últimos episódios que me  darão acesso à sexta e última - já conhecida dos norte-americanos e com estreia prevista por aqui em outubro.  O autor da história é Robert Kirkman, o mesmo dos quadrinhos, também produtor executivo e roteirista que tem por parceiros  nomes expressivos  como Scott Gimple, Gale Anne Hurd, David Alpert e Greg Nicotero- este, o responsável pelo espetacular trabalho de maquiagem dos walkers. A narrativa nos põe em contato com um policial ético e valente que desperta de um coma e encontra realidade muito diversa daquela que havia conhecido até o mês anterior. Ao deixar  ainda fraco e cambaleante o hospital deserto, em busca da mulher e do filho, só encontra desolação e morte. Onde estarão as pessoas? O que aconteceu? Será este o dia  pós- apocalipse?
 
Com esta pergunta do herói o espectador é lançado ao universo das histórias de ficção científica e de terror, onde subitamente o planeta é invadido por seres ameaçadores em proporções aterradoras. O mundo como até então era conhecido rui e apenas pequenos agrupamentos, errantes ou reclusos, vagam em um universo que regride ao estágio pré- revolução industrial, pois não há mais energia e todas as máquinas pararam. O romance Eu Sou a Lenda, de Richard Matheson, escrito em 1954, serviu de base para a criação do gênero.  O cineasta George Romero aproveitou essa concepção literária e usou o mesmo cenário em seu filme A Noite dos Mortos-Vivos, de 1968. Robert Kirkman inspirou-se por sua vez em Romero, dando sequência assim a uma tradição estabelecida também por outros autores que passaram a atender à demanda do público. 
 
Tanto quanto a ação incessante e hiperbólica,  chamaram minha  atenção em The  Walking Dead os arquétipos construídos de forma inteligente e sensível  pelo autor: o líder Brick Grimes (Andrew Lincoln); a samurai Michone (Danai  Gurire);  o arqueiro  Daryl Dixon (Norman Reedus); o jovem herói Glenn ( Stece Yeun); a leal Carol (Melissa McBride); a  mãe Maggie (Lauren Cohan),  o guerreiro em formação Carl (Chandler Riggs), o militar radical Abraham Ford (Michael Cudlitz); o cientista Dr. Eugene (Josh McDermit). Também aqueles  que representando  a loucura, a traição, a hipocrisia, a mentira, a inveja e a covardia vão povoar cada novo episódio.  Interessou-me especialmente a ênfase na personalidade dos personagens e nas suas escolhas morais. A natureza humana em toda sua crueza e  a sociedade em decadência são mostradas com a lupa do realismo mais assustador, que é aquele onde os seres são colocados diante de limites extremos: fome, sede, frio, doença, aniquilamento, desamparo, precariedades e risco sempre iminente de metamorfose monstruosa. 
 
Os  dilemas que surgem no início da primeira temporada só se adensam com a evolução do macro enredo. É defensável  matar um para salvar dez? Suicidar-se diante da iminência de um ataque no qual não se tem a mínima chance de defesa? Atemorizar uma criança para que não conte o que viu, porque o silêncio dela representa a liberdade do grupo? Atirar numa menina que diante de tanta crueldade tornou-se extremamente cruel? Entrar em conflito de proporções bélicas com outras comunidades em busca de abrigo e alimento? Massacrar todo aquele que ofereça  mínimo sinal de contestação às normas estabelecidas para uma hipotética sobrevivência?  Exilar para espaço letal a  parceira que esfaqueou  mortalmente pessoas contaminadas para  proteger os sãos? E como lidar com os que enlouquecem depois de opções terríveis? E de que jeito manter a sanidade quando a maioria ao redor já a perdeu? O que dizer a um menino que precisou matar a mãe? 
 
O apocalipse não é apenas uma palavra. Tornou-se possibilidade a partir das armas nucleares e do descaso com a natureza. E sempre existirão aquelas  hipóteses de encontro fortuito com um asteroide qualquer ou da invasão do planeta por seres de outras galáxias. Talvez por isso a série, que foi criada para agradar amantes do gênero zumbi, conquistou também outros públicos e atraiu só nos EUA  26 milhões de espectadores no último episódio da quinta temporada. É que a história  vai muito além das cabeças que rolam da lança de Michone, são explodidas pelas balas de Rick, tombam espetadas pelas lanças de Daryl ou se esmagam amorfas  sob as  botas de Abraham. Quando Rick diz que cada dia vivido representa uma vitória sobre a morte; que precisamos exterminar os zumbis para manter nossa configuração física, psíquica, mental; que tornar-se  adulto é  aprender a se adaptar ao mundo; que toda  ação tem retorno; que em muitos momentos é imperioso matar para não morrer; que certas escolhas precisam ser feitas com rapidez mas sem elidir responsabilidade, ele tanto fala de si, de seus amigos e inimigos, como de nós e nossos entornos, fazendo  referências sutis a Freud, Darwin e Nietzsche. É possível que todas essas considerações também expliquem o grande êxito e extenso alcance da série que supera o sangrento e o escatológico para nos remeter a questões éticas, morais e  até transcendentes -  estas que estão sempre nos inquietando enquanto indivíduos que necessitam do convívio. Consigo e  com o outro.

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