Contemplar...

Por: Maria Luiza Salomão

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Hoje é um dia santo ...  o Corpo de Cristo, o dia em que escrevo e o dia em que me inspira.   

Quando criança até à adolescência, ajudava a fazer os tapetes que delimitavam o caminho de saída e de chegada à igreja Nossa Senhora das Graças. Dia de convívio, desde a madrugadinha, com várias gentes. Serragens coloridas pintavam o asfalto com cenas bíblicas, que evocavam as imagens de Cristo e seus gestos. 
 
Apesar de ter estudado aquilo que constitui os dogmas católicos, e ter participado de grupos religiosos por um bom período de tempo, não me lembro de ter estudado o cerne desta comemoração. Talvez não erre, contudo, nessa reflexão sobre o dia santo.
 
Quem é o Corpo de Cristo?  Apesar de não querer pesquisar sobre, fiquei pensando que o Corpo de Cristo não é o que morreu, milênios atrás, segundo os crentes, nem mesmo a imagem que pisa o tapete pintado pelos fiéis carregada pelo sacerdote.  O Corpo de Cristo está naqueles que fizeram esse tapete, em inúmeros lugares do Brasil. E não só...
 
O Corpo de Cristo também é aqueles que não se denominam cristãos, ou seja, aqueles que não veem o Cristo como o salvador da humanidade. 
 
O Corpo de Cristo é inefável: não é uma imagem, muito menos a materialização de um corpo.  É o amor que supostamente deveria unir fariseus e samaritanos, judeus, muçulmanos, os que se dizem não-cristãos, ou até mesmo os que se dizem completamente ateus. 
 
O Corpo é o sentimento que une, o espírito que anda, a alma que envolve, o sentimento coletivo que nos faz pertencer a uma espécie - humana. 
 
Podemos ser faltos de um olho, de uma perna, de um braço, deficientes de órgãos, alquebrados em nossa integridade corporal, mas podemos reconhecer em alguém o humano. 
 
Podemos ser faltos de qualidades essenciais: verdade, gratidão, generosidade, empatia, solidariedade, tolerância, disponibilidade para o diferente, e seremos ainda humanos?  Isto já não sei. 
 
Sem amor nos unindo? 
 
Se não somos ilhas, como diz o poeta, seremos Corpo de Cristo quando badalarmos os sinos de todos os templos, cristãos ou não, pelas perdas, faltas, ausências de uns e outros do Corpo metafórico, o Corpo que inclui, que não exclui. Será o Corpo do Todo, animais, vegetais, minerais, e humanos que habitam o nosso planetinha tão pequeno, azul, que flutua em infinito espaço sideral.  
 
Em estado contemplativo, contemplo a palavra contemplar. Con-, juntos. Templo, do latim, “local sagrado”. Juntos no local sagrado. O local, claro, não é a arquitetura concreta dedicada a um serviço religioso; local sagrado será aquele em que estou comigo e com todos os seres dos reinos sagrados: animal, vegetal, animal e humano. 
 
O que, de sagrado, une todos os seres em um só Corpo? Contemplemos...

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