Presença

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

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Naquela época dos anos dourados, minha vida era muito simples, visitas aos parentes, pouco convívio social, sem viagens, sem recursos para o desnecessário. Nossa casa era norteada pelo trabalho e pelos estudos. Andava, livremente, pela cidade, ia à escola, ao cinema aos domingos, comprava, estritamente, o que precisava, e, também, à igreja, muito perto, repleta de crianças, preparando-se para a primeira comunhão.

 Quando se aproximava este dia, revestido de pompa e importância, minha mãe preocupou-se em fazer um traje adequado para a solene ocasião e para que eu fizesse boa figura entre as outras meninas. Confeccionou ela mesma um vestido de linho, com dois babados superpostos na saia e decidiu bordá-los à máquina, com acabamento em ponto cheio e em richelieu, um bordado aberto em que os desenhos eram recortados com uma tesourinha de ponta virada, fininha. Foram muitas noites de trabalho na máquina, porque durante o dia o tempo era dedicado às atividades rotineiras. Eu acompanhava aquela dedicação e paciência, os pés ritmados no pedal, as mágicas mãos controlando o bastidor, conforme o toque-toque da agulha no pano, e os infinitos recortes formando flores, galhos e folhinhas.
 
Chegou o grande dia e tudo transcorreu bem. Fiquei muito orgulhosa do vestido, muito elogiado pelas mães das outras crianças. Fotos tiradas, o vestido foi guardado por muitos anos. Vários outros bordados minha mãe fez, em seu aprimoramento, golas, bolsos, blusas. Ultimamente, bordava lençóis em linho, em riscos tirados de revista com carbono e ela ia pondo cores e personalidade aos motivos. Jogava com as linhas mescladas de forma a conseguir o tom desejado, onde queria dar um toque pessoal, mais escuro ou mais claro.  Toalhas de mesa, também, eram suas preferidas. Tenho uma em linho bege com pequeninas flores lilases e de outras cores, volteada por um grande barrado de crochê, muito singular, que uso sempre, em sua memória, quando reúno meus irmãos para um café. Sentimos a sua presença espiritual, valorizamos o seu talento e sua magnitude no que fazia e nos referimos aos seus feitos com admiração e saudade. Quando não existirmos mais, vamos deixar a nossa história tecida nos fios da vida. Qual será a nossa história? Bela, triste, exemplar, enevoada, amorosa?    
 
Para que esta vida faça sentido é preciso construir uma história intensa. Só assim nossa presença será sentida na memória afetiva de pessoas queridas.

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