Livros, leitores, leituras

Por: Sônia Machiavelli

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Aguardei  curiosa a divulgação na segunda quinzena de maio dos dados da quarta pesquisa Retratos  da Leitura no Brasil, realizada pelo Ibope Inteligência para o Instituto Pró-Livro, fundado pela Câmara Brasileira do Livro(CBL), Associação Brasileira de Editores de Livros Escolares (Abrelivros) e Sindicato Nacional dos Editores de Livros(SNEL).  A base de dados é o ano de 2015. 

De acordo com Luís  Antônio Torelli, presidente da CBL, uma das informações soa como boa notícia: o número de leitores aumentou em relação ao da terceira edição. Atualmente o Brasil é constituído por 56% de leitores, assim considerados aqueles que leram pelo menos um livro, inteiro ou em parte, nos últimos três meses.  Pela projeção em relação à mostra (o universo foi de cinco mil entrevistados) temos 104,7 milhões de leitores. O crescimento do índice em relação ao ano de 2011, pesquisa anterior, quando  metade dos entrevistados caracterizava-se como leitores, foi de seis pontos percentuais. Saltamos de 50 para 56 e por isso  Torelli  festeja  o resultado,  afirmando  em entrevista que “precisamos agora encarar o desafio que nos é colocado: fomentar  a leitura nos 44% dos que ainda não são leitores.” 
 
Se Torelli comemora, a jornalista Lúcia Guimarães, na introdução da matéria de capa do Aliás ( Missão das Leituras, Estadão, domingo, 22 de maio), quase lastima. Depois de lembrar que o resultado da pesquisa  frustra aqueles que gostam de ver o copo meio cheio, explica: “...  quando se considera que 44% dos habitantes da oitava economia do mundo não leem regularmente, em pleno século 21, e que 30% nunca adquiriram um livro, é difícil encontrar causa para celebração.” Sugerindo sutilmente que o copo está meio vazio, Lúcia destaca que a média de leitura na população de países desenvolvidos é de doze livros por ano; que a mídia  americana e europeia  costuma listar  no começo de todo verão livros que podem interessar nas férias; que artistas acima da linha do equador costumam dizer o que estão lendo e assim estimulam outros leitores. Já  viram isso por aqui, celebridades brasileiras  falando com autenticidade  e prazer de um livro que as esteja empolgando? A  questão está muito atrelada ao tipo de cultura onde as pessoas se  inserem, como se vê. E num país atolado em corrupção como o nosso, sobram poucos  recursos e tempo aos responsáveis pela educação para preparar a cada ano uma agenda entusiasmante que poderia  despertar  o interesse por  novos autores ou reafirmar  a importância dos clássicos. Como agravante, numa sociedade voltada de forma avassaladora para o supérfluo, o epidérmico, o descartável,  onde se situa o espaço para a leitura que move o íntimo de cada um?
 
Seguindo a reflexão de Lúcia, Susan Neuman, psicóloga e educadora  da New York University, registra numa frase pessimista , respondendo a uma pergunta da jornalista,  o seu desagrado em relação aos resultados da pesquisa brasileira:  “ Mas que números tristes!”  Neuman  tem  muita experiência  na área, é especialista  em educação fundamental e secundária, foi subsecretária de educação no primeiro mandato de George Bush. Reconhecida nos EUA como uma das principais autoridades em desenvolvimento na primeira infância e alfabetização, assina vários livros, o último deles um estudo sobre os efeitos da pobreza na alfabetização.
 É bom levar em conta as suas considerações sobre a formação de hábitos de leitura, embora nada do que diga seja  novidade. Sabemos que “se uma criança não vê ninguém lendo habitualmente, já é ruim, porque ela está sempre à procura de modelos que indiquem como o mundo funciona; se não observa à sua volta uma cultura de leitura, tem menos chances de se sentir atraída por livros.” Também é do conhecimento de adultos bem informados que  “pais que cultivam hábitos de leitura nos filhos estimulam a criatividade e ajudam no desenvolvimento de um senso crítico apurado.”  E se há uma lição que parece ser do domínio dos educadores é a de que “os dois primeiros anos de escolaridade são importantes, mas se a criança chega  lá  sem ter experimentado o estímulo adulto, não há professor dedicado que possa compensar na sala de aula, pois quando a criança pisa na escola pela primeira vez , ela leva consigo a  geração que a enviou para lá”. Como muito relevante considerei  o que diz a psicóloga sobre o alto grau de influência da emoção dos  pais ou adultos significativos sobre o despertar do desejo de ler nas crianças. Mesmo analfabetos podem ajudar na alfabetização destas, mantendo atividades que envolvam palavras.  Contar uma história, cantar enfatizando rimas, narrar sagas familiares, brincar com  materiais simples aos quais se atribuem  nomes e qualidades  são ações que podem levar os pequenos a apurar seu imaginário, o que é de suma importância no processo de gostar de ler ficção. Quem já viu um menino na roça transformar chuchu  em vaquinha, ou  uma menina  fazer  boneca com  espiga de milho, sabe a que alude Neuman quando se refere à capacidade da criança de criar narrativas mesmo com brinquedos rústicos, improvisados.  Às vezes ter menos é uma vantagem.
 
Uma resposta dada pela entrevistada à  indagação sobre  as razões de certos programas de incentivo ao livro fracassarem vale como um convite à reflexão  sobre tema que deveria fazer parte do nosso cotidiano. “Um problema que vejo é o tom excessivamente didático (...) Esquecem  de associar a leitura a brincadeiras e ao afeto. Nem toda mãe ou todo pai pode passar muito tempo lendo à noite para cada filho. Mas não importa; nem que seja por alguns minutos abrace e beije a criança, olhe nos olhos dela enquanto abre um livro. Ela vai guardar essas emoções na memória e vai sempre associar a leitura a momentos preciosos.” Fica aí a sugestão  para você que tem no seu entorno alguma criança a quem pode beneficiar . Ajude-a  a formar um patrimônio inestimável que será  todo dela e para sempre. 
 
Quanto à essência da pesquisa, diante dos números e das opiniões mencionadas  penso que estamos num momento que se não é para intensos aplausos, também não é para vaias acachapantes. Se entre os leitores mensurados  há os que não entendem muito bem o que leem, e por isso abandonam o livro antes de concluí-lo, por outro lado existe  um crescimento de interessados em  antigos e novos autores e disso nos dão notícias os lançamentos e as reedições de títulos elencados mensalmente pelas editoras. Se isso acontece é porque há demanda, lei básica do mercado. 
 
Neste contexto positivo de esforço em favor da leitura no Brasil, é imperioso lembrar  várias iniciativas particulares em Franca,  entre as  quais destaco  Roda Livro, que já emprestou milhares de obras de suas  geladeirotecas  espalhadas pela cidade, e  Academia de Artes, ONG do GCN que disponibiliza 10 mil títulos  de  sua biblioteca para  alunos e  moradores do bairro Elimar e  adjacências, mantendo como atividades  inerentes contação de história e rodas de leitura. 
 
Estas unidades lúdicas revelam-se  importantes pontos de inspiração à leitura, de  compromisso para com o livro que se toma emprestado, de liberdade para escolher o que mais apraz ler. Pela gratuidade, zelo e acolhimento, são exemplos  de que  neste âmbito , como em diversos outros não contemplados devidamente pelos governos,  o gesto cidadão pode contribuir para enriquecer  a vida das crianças brasileiras. E, através delas, melhorar o país. Porque fora da educação não há crescimento. 

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