a chegada da ausência

Por: Luiz Cruz de Oliveira

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Minha certeza é concreta como anjo, como alma, como Deus: ela chegará. 

Ela chegará.
 
No silêncio de uma tarde chuvosa, ou na calada de uma noite de lua cheia, ela chegará. No balanço terno de um barco, ou no dorso de uma jangada. Flanando nas notas brancas de um bolero que aporta num cais, até então insabido, ela chegará. Cavalgando letra de tango – suja folha de papel rasgada, levada, trazida pela brisa, ela chegará.
 
A ausência chegará. 
 
As suas vestes estarão rotas já, mas as estampas ainda gritarão cores de todas as cores.
A sua música estará quase inaudível já, mas a canção dançará incólume, transportará, tangíveis, no côncavo da mão, as sementes do amor.
 
Ela chegará. 
 
Sob luares ou tropeçando em pedras de escuridão, a ausência chegará. 
 
Um dia, quando você entrar em casa, vinda do trabalho, vinda da rua, e começar a se despir de inconveniências tantas, de tanta maledicência e hipocrisia, tanta opressão e injustiça, você perceberá uma sombra no sofá, ou debruçada à janela, observando os namorados que passeiam lá longe, de mãos dadas. Você reconhecerá o vulto, e não haverá surpresa. Então a ausência olhará um rosto triste e ficará triste, vendo as cores que esmaecem no poente, no corpo.
 
Um dia, quando você entrar no quarto, vinda da festa, da noite, e começar a se despir de importantes futilidades tantas, de tanta mentira e falsidade, você perceberá um corpo – minha ausência – amarrotando seus lençóis. Ela olhará triste para passos tristes e para suas mãos, beijadas tanto, e olhará para seu rosto inseguro e triste e ficará mais triste. 
 
A minha ausência chegará um dia. É inevitável.
 
E haverá nos olhos da malvinda tanta dor que em você alguma coisa doerá como morte.
 
E você, pela primeira vez, terá vontade de morrer.

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