Rios

Por: Eny Miranda

322772

Quem teve um rio na história de sua infância?

Rio, riacho ou córrego, onde pequenos peixes coloridos desafiam as mãos e iluminam os olhos... onde se mergulham os pés nos dias quentes, e a imaginação o ano todo... em cujo leito um diamante raríssimo se abriga, em meio aos seixos rolados - diamante feito de quartzo, vidro, ou qualquer coisa transparente que se possa retirar das águas, escovar, apreciar à luz do sol e guardar - tesouro de valor incalculável, porque simplesmente belo...

Quem teve, na infância, o seu tempo de águas doces e lambaris sagrados, como os de nossa poeta e prosadora Regina Bastianini?

Eu tive esse doce rio-riacho-córrego, nascido nos lábios e na voz de minha mãe. O rio de minha cidade, o meu rio materialmente palpável e visível era salgado, inquieto, imenso; às vezes, encapelado, turvo e bravio. O rio de meu Rio era mar.

Quando mamãe me falava do rio de sua infância nos dias ensolarados - seu doce rio de canto suave e superfície bordada em luz e sombra - e dos ingazeiros sobre ele debruçados - repletos de vagens grávidas de sementes macias, envoltas em algodão e mel, que ela colhia e saboreava -, minha alma se enchia de azul-verde; meus olhos, de águas correntes, cristalinas, e a boca, de polpa branquíssima e açucarada.

O rio de minha mãe passava então a ser o meu rio. Nascia de seus lábios, corria em meu corpo e desaguava em minha alma. Depois, já nascia de mim mesma, eu gestava esse rio nas entranhas. E como era belo e fresco e dócil! Eu o moldava e conduzia, espelhava e coloria, às margens, ao curso, ao sol e ao céu de meus sonhos e ilusões.

Quantas e quantas vezes nele mergulhei os pés e as mãos; quantas e quantas vezes senti o cristal líquido escorrendo entre olhos e dedos, enquanto vasculhava seu leito, à cata de tesouros. Com ele aprendi, da nascente ao deságue, o caminho circular da vida; descobri (sem filosofias) que, a despeito disso, não há como percorrer e tocar duas vezes a mesma água. A cada história, ouvida ou imaginada, mudanças ocorriam, nelas (águas) e em mim.

Hoje, meu rio cresceu e encontrou o caminho do mar. Ainda tenho a alma cheia de águas e peixes e pedras cristalinas, mas já não posso mais moldar o meu rio. Ele abre o seu leito, desenha o seu curso, corre sozinho - da doce nascente ao derradeiro mergulho, ao batismo no sal, que é origem - em fluxo contínuo, sempre o mesmo e sempre renovado.

Sigo com ele.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras