Anjo da Infância

Por: Angela Gasparetto

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Deitadas na rede de sua casa de madeira, com ele sentado na sua cadeira de balanço, fumando um cigarro de palha e olhando para o teto, eu e minha irmã perguntávamos de onde ele tinha vindo. E ele, sério: “Do oco do pau”. Ouvindo isto, jogávamos os três a cabeça para trás e ríamos em uníssono.

Ele tinha olhos esbugalhados, sobrancelhas imensas, cabelo ralo, tez morena, coração de irmão mais velho, postura de amigo.

Sua casa era escura com cheiro bom. Assoalhos que rangiam, linguiças secando ao teto, café em bule de ágata, bananas armazenadas na barrica velha.

Era nosso vizinho e amigo mais querido. Sozinho e triste, ele caminhava longas jornadas pela fazenda onde morávamos, trabalhando como capataz.

Era ele que sempre aparecia com frutas inesperadas com sabor de alento nas tardes de castigos da minha mãe. E só na casa dele que havia os queijos saborosos que eu aprendi a adorar.

Nossa primeira boneca foi ele que nos deu. Quem nos cortou goiabada com queijo com o facão antigo, leite com açúcar ou sal tal qual minha irmã exigia, foi ele. Eu só o perscrutava.

Foi ele que comprou as cobertas de xadrezinhos mais lindas e cheirosas que já vi. Em tempos de pobreza extrema, era ele quem chamava um táxi para nos levar de volta para a cidade nas visitas ocasionais quando depois mudamos. Só ele fazia-nos especiais.

Na mudança da fazenda para a cidade, lembro que ele ficou estático junto à cerca e nunca vi tamanha tristeza nos olhos de uma pessoa. Já em cima do caminhão, chupeta na boca, segurando a boneca agora maltrapilha, meu olhar emudecido cruzava com o dele, despedindo-nos mudamente.

Na correria da mudança, não consegui esquecer aquele momento.

Entendi anos depois que foi ele, além de minha mãe, a primeira pessoa que nos manifestou amor naquela seara de sentimentos na qual vivíamos.

Quando já mais velho, veio a falecer. Mas acredito piamente que morreu mais cedo, todos os dias naquela fazenda depois de nossa mudança.

Já nós morremos todos os anos na cidade nova.

Sim, foi ele nosso primeiro amigo de infância, o qual nos ensinou pela primeira vez a lição de ternura real e desinteressada.

Já nós, involuntariamente, lhe ensinamos a lição da ingratidão.

Aprendi que mudanças na vida são necessárias, mas algumas dores advindas delas, imperdoáveis.  

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