Ser mulher

Por: Maria Luiza Salomão

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Para mim, qualquer “ismo” tem o defeito da generalização.  Feminismo, por exemplo, coloca todas as mulheres iguais em tudo: afeto, história de vida, cultura, cor da pele. Em hábitos e costumes, enfim. 

Feminismo é bom para a política, reivindicações de gênero: denúncia de estupros; salários discriminativos; reivindicações corporativas, em que o fato de ser mulher possa sofrer ataques, por questões sócio-culturais. 
 
Mas há outras questões bem mais obscuras relacionadas aos preconceitos, irracionais; conexões afetivas baseadas nas histórias de vida, nos hábitos e costumes familiares, que, pertencentes à cultura, trazem, no entanto, idiossincrasias peculiares à família em que a mulher tem, por ventura ou desgraça, nascer. 
 
A política tem enorme valor e ajuda na conscientização daqueles fatores que passam como naturais, e não são! A cultura funciona como uma segunda pele. Se nascesse no Afeganistão, usaria a burca?  Lutaria contra? Tudo iria depender do meu grau de envolvimento afetivo com a vestimenta - o que colocaria nela? Necessidade de reconhecimento? Rebeldia ou submissão, dois lados da mesma moeda? O que seria a burca: esconderijo ou aprisionamento? Manutenção do desejo de privacidade, ou manifestação da intrusão na condição de ser singular, respeitada na exclusiva forma de ser?  
 
Ser mulher, no século XXI, alberga variadas formas de ser mulher. Há mulheres que lutam para ser “do lar”, mesmo se o marido precisa da sua contribuição econômica para a subsistência econômica da família (serão elas também machistas?).  Há outras que sustentam o parceiro, e, portanto, a família: invertem uma situação estável para mulheres burguesas, ou as da corte imperial, colonialistas.  O que acontece com a mentalidade (da mulher e do homem) quando há inversão de funções tão dura e humilhantemente estabelecidas em épocas anteriores?
 
No entanto, em outros séculos, as mulheres contribuíram efetivamente para a subsistência da família. Aquelas do “tempo das cavernas” cuidavam das crias, eram guardiãs do território conquistado pelo macho. Com o advento da agricultura, eram participantes da produção agrícola, e fazedoras de comidas feitas para durar durante estações inóspitas. No escravagismo, trabalhavam como os homens escravos. Os dois gêneros não eram considerados “humanos”, quando colonizados. 
 
O que há na condição feminina que leva muitas culturas a temerem a mulher- demônio, como a Eva, sedutora mortífera? Quais seriam os mitos fundadores da Mulher que precisaria ser dominada, vilipendiada, humilhada pelo gênero masculino? De onde vem o mito do “sexo frágil”?  De frágil, a mulher é como o bebê.  Frágeis na aparência, a mulher e o bebê são capazes de fazer o “inferno” da vida dos que estão à volta, tanto quanto são capazes de dar prazer.   
 
Há muita força e poder na Mulher. É ela que gera e abriga - na carne e no sangue -  a vida. É ela que reina na infância dos seres. É poder demasiado... mesmo com tantas invenções tecnológicas e reorganizações familiares.
 
Vejo mulheres vivendo como nas cavernas ( imigrantes em fuga a tentar uma vida melhor para as crias). Vejo algumas que se comportam como que escravizadas. Há as que sentem e se comportam como seres respeitados: pela competência, inteligência, criatividade; e também mães. Vejo muitas livres, se reorganizando sem apoio de qualquer homem, sem reivindicar proteção ou sustento, ou alimento afetivo.  Vejo mulheres de todos os séculos, no meu dia-a-dia, no meu ofício. 
 
Também vejo mulheres que seguem estereótipos masculinos, as “super-poderosas”. Poderosa como qualificativo elogioso (será?). 
 
Penso que é apenas uma parte da questão do ser mulher, a conquista de um espaço ocupado pelo homem, na vida profissional. Espero não perder o que me torna feminina, condição delicadamente diferente da do homem (o que será?). 
 
Vejo o homem assustado e confuso: ele também mudou.  
 
Tenho dúvidas. Busco recolocar a pergunta: não querendo ser como o homem, como quero ser, sendo mulher?    

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