Sermão (de Santo Antonio) aos Peixes

Por: Sônia Machiavelli

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“Se vos adoece o filho, Santo Antonio; se vos foge um escravo, Santo Antônio; se requereis o despacho, Santo Antônio; se aguardais a sentença, Santo Antônio; se perdeis a miudeza de vossa casa, Santo Antônio; e, talvez, se quereis os bens alheios, Santo Antônio.” Este trecho de sermão proferido pelo Padre Antonio Vieira no Maranhão no dia 13 de junho de 1663, é prova de que entre nós o culto ao santo português é pra lá de arraigado; cresceu, expandiu-se  e se fortaleceu com o país.  

As repetições, o encadeamento, o ritmo da frase, a crítica sutil, a fina ironia são traços do estilo barroco de Vieira, cidadão de dois mundos- a Europa civilizada e o Brasil ainda selvagem. Nascido em Lisboa em 1608, aqui chegado aos oito anos, entrou para a Companhia de Jesus e dedicou sua vida ao conhecimento, à expansão do cristianismo, à defesa dos índios espoliados e dos judeus perseguidos. Por conta dessa luta foi condenado a dois anos de  prisão pela Inquisição. Morreu na Bahia, em 1697, deixando obra robusta que o habilitou a ser chamado por Fernando Pessoa de “Imperador da Língua Portuguesa”. Homenagem mais bela haverá? 
 
Santo Antônio, batizado Fernando, exerceu fascínio sobre seu conterrâneo póstero. Também lisboeta, morreu aos 36 anos, em 1231, na entrada da cidade de Pádua, na região do Vêneto, rica em belezas naturais, obras de arte, arquitetura; e sede de uma das primeiras  universidades da Itália ainda dividida em reinos. Antonio  de Lisboa ou de Pádua já era lenda em vida, graças aos dons da oratória e do estilo de vida despojado. De agostiniano se tornara franciscano desde o dia em que por acaso encontrara Francisco de Assis no seu caminho e mudara de ordem e de nome. No processo mais rápido da história da igreja, foi canonizado onze meses depois de sua morte.  
 
Dez anos antes do sermão cujo trecho tomei emprestado para abrir esta crônica despretensiosa, inspirada pelas festas juninas, Vieira  havia se celebrizado entre brasileiros e portugueses por outro, o Sermão aos Peixes, também conhecido como Sermão de Santo Antônio, onde resgata fato extraordinário  da biografia do que amanhã será celebrado em  todo o Brasil católico. No exórdio, o ícone da oratória sacra em língua portuguesa assim descreve o episódio:
“Pregava Santo Antônio em Rimini, contra os hereges, que nela eram muitos; e como erros de entendimento são dificultosos de arrancar, não só não fazia fruto o santo, mas chegou o povo a se levantar contra ele e faltou pouco para que lhe não tirassem a vida. Que faria neste caso o ânimo generoso do grande Antônio? Sacudiria o pó dos sapatos, como Cristo aconselha em outro lugar? Mas Antônio com os pés descalços não podia fazer esta protestação; e uns pés a que se não pegou nada da terra não tinham que sacudir. Que faria logo? Retirar-se-ia? Calar-se-ia? Dissimularia? Daria tempo ao tempo? Isso ensinaria porventura a prudência ou a covardia humana; mas o zelo da glória divina, que ardia naquele peito, não se rendeu a semelhantes partidos. Pois que fez? Mudou somente o púlpito e o auditório, mas não desistiu da doutrina. Deixou as praças, foi-se às praias; deixou a terra, foi-se ao mar, e começou  a dizer a altas vozes: ‘Já que me não querem ouvir os homens, ouçam-me os peixes.’ Oh maravilhas do Altíssimo! Oh poderes do que criou o mar e a terra! Começaram a ferver as ondas, começaram a concorrer os peixes, os grandes, os maiores, os pequenos, e postos todos por sua ordem, com as cabeças de fora da água, Antônio pregava e eles ouviam.”
 
É inegavelmente sugestiva, plástica, pictórica, e provavelmente  ficcional, a cena que inspirou outros prosadores, alguns poetas, muitos pintores, centenas  de azulejistas e milhares de artesãos que moldaram a cena em diferentes  suportes. Um religioso falando aos peixes que emergem  à flor da água para ouvi-lo protagoniza no mínimo uma instigante história sobre a força da palavra catequética, poética, lúdica, pedagógica. Por conta deste relato que resiste há oito séculos, milhares de pescadores das regiões ribeirinhas brasileiras se apegam ao santo para tentar vencer os desafios de seu trabalho. Considerando o poderoso interlocutor e fiel intercessor, e desejando que as redes sejam recolhidas com fartura, durante a festa eles as lançam às  águas cantando assim: “No dia 13 de junho/ é só pô a rede e tirá/ os peixe ‘stão na fiúza/ de Santo Antonio falá.”
 
Os dons  hipnotizantes de Santo Antônio, como os do padre Vieira, tornaram-se lendários. Dizem os biógrafos do primeiro que mesmo falando para estrangeiros  ele era compreendido ; os do segundo, que o entendimento que os índios tinham de sua palavra impressionava. Grandes homens, um da Idade Média, outro do Renascimento, cultuaram seu idioma e fizeram da comunicação o meio para levar a fé religiosa ao maior número possível de indivíduos. Deixaram obra vasta e crivaram com excelência literária o gênero a  que se dedicaram. 
 
Vieira  continua  surpreendendo o leitor que se aproxima de seus sermões e encontra  neles também elementos de filosofia, fundamentos de psicologia, muita história, especialmente a da tirania dos conquistadores e da crueldade da Inquisição. 
 
Santo Antônio mantém-se no imaginário por uma tradição que o eleva ao patamar dos que nasceram com o dom da oratória e o aperfeiçoaram a cada dia com gestual e entonação, elementos da genuína retórica, essa  arte da eloquência, da argumentação, da palavra.   Por isso mesmo, todos os anos são milhares os fiéis que vão à Pádua para ver num retábulo de vidro, à esquerda do altar mor da  basílica que leva seu nome, o  aparelho fonador que a terra não consumiu.  

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