Matéria de verbo

Por: Eny Miranda

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Já podia sentir no quarto a tepidez do sol nascido. Mas o que realmente a despertou foi aquele fio de poeira luminosa a fustigar-lhe as pálpebras, aquele olhar insistente, vazado entre mil partículas, e vindo de um pequenino orifício na veneziana da janela - estranha pupila, emissora, e não receptora, de luz.

Tentou proteger os olhos com a mão, e com o travesseiro, mas acabou desistindo.

Levantou-se e deixou que a manhã inteira pudesse vê-la, envolvê-la, penetrá-la. Abrindo braços e janela, aspirou fundo a suavidade perfumada do ar.

O jardim recendia às magnólias e aos manacás, que, envoltos ainda nos humores da madrugada, abriam olhos e corolas para a manhã e sua corte de asas e de cores. Uma tênue umidade vaporava suas pétalas, e era levada pela brisa, refrescando e odorando o interior do quarto. A julgar pelos primeiros lumes, o dia seria leve, transparente - esplêndido.

Contudo, desde a manhã anterior, um outro fio, nada luminoso, estreitava-lhe a alma, impedindo-a de expandir-se, de beber aquele ouro pálido que, pouco a pouco, se fazia azul. Um fio de palavras - matéria poderosa, e para a qual parece não haver antídotos, armas ou escudos, porque é intangível -, um colar, feito de pesados sons e seus ecos de chumbo, comprimia-lhe a garganta, sufocando-a. Aspirava repetidamente as exalações da manhã, na tentativa de aliviar a pressão, mas era inútil o seu esforço. Os caminhos que conduzem o ar até os pulmões passam longe daqueles por onde transitam as palavras. Ainda que seu corpo respirasse livremente, embebido nos suaves estímulos de um dia pleno, sentia-se asfixiar.

Nem sempre as emanações do Mundo são mais fortes do que as emanações do Homem. As manhãs nascem e morrem, louras ou não; nascem e morrem as tardes, cinzentas ou sanguíneas, assim como as noites, tempestuosas ou vazadas em luz, nascem para morrer. Não a palavra. O ar, a água, as cores... são matéria do mundo, que é cíclico, mas a palavra é matéria da alma humana, que permanece, na eternidade de seus ecos. Quando o fio do vento se faz corrente, fecha-se a porta ou a janela, mas quando o fio do verbo se faz corrente, não há portas nem janelas que resistam à força de seus elos.

Contudo, há a loucura do Poeta e a alquimia de sua palavra, capazes de grandes construções e grandes diluições.

À noite (sua agonia já era indescritível), subiu ao terraço. Lá embaixo, o gramado reluzia. No céu, boiava uma lua redonda e nacarada. Desejou alcançá-la. Parecia tão próxima... Fitando-a melhor, percebeu que acenava para ela. Pensou em Ismália e em sua doce loucura.

Então, inclinando-se para frente, confiou a alma às grandes asas de Alphonsus, e o corpo, ao perfume, às pétalas, ao mar enluarado do jardim.

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