Falta de Assunto Essencial

Por: Maria Luiza Salomão

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ASSIM disse Clarice Lispector em uma de suas misteriosas autodefinições: dela, de sua escrita. 

Ela se dizia alguém que tinha uma falta de assunto essencial...
 
Interessante porque na frase há uma duplicidade de sentidos: ou bem entendemos o sentido da frase como não haver assunto, ou que falta o essencial para o assunto. 
 
Quantas vezes começamos a falar e a fala nos puxa e nos conduz. Quando sonhamos, quem sonha o sonho sonhado? E, se escrevemos, quantas vezes são os dedos que vão procurando as teclas do computador e, meio que arrastados  pelas palavras, vamos assuntando coisas, e nem sempre são as planejadas. Quantas vezes mudei o título do que escrevia, que deveria ser o assunto, porque, ao final e ao cabo do texto, o assunto era outro. 
 
Essencial é o conteúdo do que quero dizer ou a forma como o digo? Quantas brigas acontecem pela forma – moldura de entonação, de arranjo de contexto das palavras que servem ora para esclarecer e ora para obscurecer o que sinto. Não é uma questão de conteúdo.
 
Talvez o assunto seja apenas o manto a encobrir uma falta essencial.  E, hoje, aqui, o que me falta, quando busco o assunto?
 
Conheço uma garota que, comigo, conversa muito. Mas o assunto parece sempre o mesmo: reclamações inúmeras porque a vida não lhe dá na cor, na temperatura, no molde, aquilo que ela sempre espera. Sempre espera e não vem, mais um motivo de reclamação. 
 
Como Clarice, ela muitas vezes se vê precisando inventar assuntos. Ela já se acha esquisita o suficiente, para achar que pode ficar muda, ao lado de alguém, sem assunto. 
 
Ao final, quando cansa para valer, ela quer ficar sozinha, com o seu quarto, seu banheiro, sua saboneteira, sua cama, suas almofadas, seu notebook, seu celular, tudo só para ela.  Assistir ao filme  sozinha, porque não gosta de ouvir comentários durante; comer sozinha, para ninguém implicar com o jeito nem com o que come. 
 
É jovem, é bonita, e, no entanto, a vida se restringe a esse seu mundinho controlado e controlável. Eu escuto, e penso se devo ficar como seu quarto, banheiro, saboneteira, cama, almofadas, notebook ou celular? Ou será que devo espantá-la, ao me tornar um assunto? 
 
Como não sei a resposta, fico pensando que, de repente, ela me deixou sem assunto. E continuo sem saber o que é essencial, o que falta, e se há mesmo uma falta de assunto essencial, ou se o essencial é mesmo a falta de assunto. 
 
Afinal, continuamos juntas, com assunto e sem assunto. E isso é humanamente possível. Será pouco, Clarice?       

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