Está vazando doido pelo ladrão

Por: Luiz Cruz de Oliveira

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 - Professor! Professor!

O som é bússola, caminho em direção à voz. A dois metros de distância, reconheço o chapéu branco do Osvaldo, pintor de paredes, aposentado há mais de trinta anos..
 
- Professor, olha quem está aqui, papeando comigo.
 
 Aproximo-me um pouco, procurando enseada entre névoas, reconheço o amigo Ronan, o mais conceituado corretor de imóveis lá do quarteirão onde mora.
 
- Olá, Ronan, como vai?
 
- Bem.
 
Sento-me ao seu lado, ajudo a compor mais um trio de desocupados que superlotam os bancos da Praça Barão. A proximidade me possibilita ler no seu rosto, a comprovar a desconfiança que me chegara na sua fria resposta monossilábica. Interrogo o amigo.
 
- Que cara é essa? Parece até que comeu e não gostou.
 
- É, eu estava falando aqui pro Osvaldo. Acho que vou morrer sem ver tudo.
 
- Que é isso? Ao invés de resolver quebra-cabeça, agora você está fazendo enigma?
 
- Não, não. É que cada dia tem uma coisa nova, absurda. Eu não entendo...
 
- Não liga, não. Aposto que você está preocupado com a crise econômica. Não liga, não. Crise é assim. Vem, vai embora, torna a voltar, torna a sumir...
 
- Não estou preocupado com crise, não. 
 
- Então, que bicho mordeu seu pé?
 
- Coisa à toa, mas você nem vai acreditar... eu vinha andando pra cá, e um mendigo, esparramado num banco, pediu ajuda, pediu pelo amor de Deus, disse que estava com fome, queria dinheiro pra comprar comida. Fiquei com dó, dei uma nota de dois contos pra ele.
 
- Deixa de ser atrasado, Ronan. Faz uma vida que mudou a moeda. Você deu dois reais, não foi?
 
- Foi, foi. Eu sei, dei dois reais pra ele e ainda expliquei que ele podia almoçar lá no restaurante do governo e ainda sobrava troco pra ele comer um doce.
 
- Aposto que ele não foi.
 
- Não sei, não sei. Mas você não vai acreditar no que aconteceu.
 
- O mendigo levou susto e caiu do banco?
 
- Não, não. Você nem vai acreditar. Ele olhou para mim e falou: “o doutor não vai dar uma moeda pra ele?”. Eu não entendi e perguntei: ele quem? E ele apontou o indicador para o cachorro que dormia ao lado do banco. “Ele também precisa comer”.
 
- Você acredita, professor?
 
- Claro que acredito. Acredito, sim. Cachorro também precisa comer.
 
- Tenha a paciência, professor.
 
Antes que meu amigo tivesse um ataque de apoplexia, levantei-me, despedi-me apressadamente, justificando-me:
 
- Desculpem-me, mas estou com pressa. Tenho compromisso sério. Desejo refazer uns cálculos, estou desconfiado de que o Albert Einsten cometeu uma série de erros. Pretendo refazer tudo o que ele fez.
 
O Osvaldo me olhou com a cara abobalhada de sempre, coçou a cabeça, desejou com a honestidade de sempre:
 
- Bom trabalho, professor.
 
.O Ronan me olhou distraído, possivelmente já viajando pelo mundo de mendigos e cachorros.

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