Erva- cidreira

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

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Em um vale recortado por montanhas de um verde viçoso, salpicado de árvores frondosas, de clima ameno, provido de riachos caudalosos, morava Sr. Justino, sozinho, porque desejava a proximidade com a natureza. Toda a paisagem ao redor estava em harmonia: o silêncio, as cores, a brisa, a paz.  Acordava quando o sol surgia para se aquecer sob seus raios e recolhia-se quando este declinava na serra. A sua música era o trinar dos passarinhos e, à noite, admirava o lume das estrelas e da lua.  Tinha o conforto necessário, mas sentia na alma o gosto pelo puro, o intocado, o natural. Não era um homem rude, mas sensível às coisas simples, provenientes da terra.

Tinha na cidade família que raramente contatava. Uma vez por semana, o patrão aparecia por lá para campear o gado, levar sal e prover-lhe de alimentos. Vigoroso, disposto, montava com desenvoltura e cuidava de seus afazeres com facilidade. Pronto para servir, tinha entre os vizinhos o conceito de homem bom, mas não se relacionava com ninguém, apenas com uma avó e sua neta que, como ele, habitavam uma casinha que era um primor, em um sítio próximo. Ia vê-las, mensalmente, e quando a mocinha ouvia o trotar de seu cavalo, corria para chamar a avó, entretida em seus crochês. Tinha com elas uma afinidade muito grande, falavam pouco mas sentia um aconchego naquela casa, um contato de almas, uma sinceridade absoluta. Assim que ele entrava, enquanto a avó dava-lhe notícias de como iam as plantações que ela arrendara, a moca dirigia-se à horta para colher uns galhos com folhas de erva-cidreira, também conhecida como melissa, que recendia em suas mãos, enquanto colhia, aquele aroma especial e peculiar, frutado a limão. No fogão, a chaleira de água quente esperava a infusão das folhas da planta para surgir um suave e delicioso chá de sabor adocicado, com notas cítricas.  A conversa transcorria suave, sem paixões e sem pensamentos mesquinhos. O sossego do espírito era o objetivo deles, vivenciar a natureza, a alegria da vida e a pureza de sentimentos. Aquela energia que emanava da planta fazia-lhe bem. Justino revigorava-se com o chá que ingeria em goles vagarosos. Aquele aroma que inundava a pequena sala perfumava a sua alma e lhe dava alento para o retorno a sua casa.

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