Parece que foi ontem

Por: Paulo Rubens Gimenes

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 É, parece que foi ontem...

Que o Airton Senna encantava as manhãs sonolentas de domingo sob  gritos entusiasmados do Galvão Bueno e ao som de “ Tema da Vitória”.
 
Que acendíamos um “John Player Special” (naquela época fumar não era pecado) e tomávamos um ‘gelada’ lá no Margynal Drinks ou no Pajé.
 
Que os “fiscais do Sarney” fechavam mercados numa cruzada insana para salvar a economia.
 
Que os ventos da “Nova República” traziam toda a esperança de um país melhor, celebrada intensamente na Algarve ou na Mutante ao som de Barão Vermelho, Ultraje a Rigor, RPM, Paralamas, Legião, etc.
 
Que no final do ano aquele coral de crianças fofinhas nos desejava - “ bom Natal, um Feliz Natal, muito amor e paz pra você...”
 
Que atrás das paredes envidraçadas, na esquina da Major Claudiano com o Calçadão da Marechal, rapazes sedentos de vida e as garotas mais belas da cidade faziam o Banco Nacional. 
 
É, parece que foi ontem, mas lá se vão trinta anos.
 
O Galvão Bueno continua gritando, mas agora o entusiasmo é falso, as corridas de domingo perderam seu herói e seu encanto.
 
O cigarro se apagou, o Margynal Drinks fechou.
 
Os “fiscais do Sarney” recolheram suas causas e bandeiras e ainda hoje, anos e planos depois, tentamos achar os culpados e salvar nossa economia. 
 
Algarve e Mutante emudeceram, nossas bandas de rock se calaram e cederam seu lugar nos alto-falantes ao sertanejo universitário e ao funk (argh!).
 
Nas chamadas de Natal em nossa TV o coral das crianças não aparece mais, sua vizinha de tanto tempo, a Campanha de Fim de Ano da Globo, ainda resiste, mas agora  é só instrumental, nossos artistas globais não cantam mais; será que nos dias atuais não há mais lugar para palavras de esperança como – “ nestes novos dias as alegrias serão de todos é só querer”?
As paredes de vidro se quebraram, o Banco Nacional também. Aqueles rapazes, hoje maduros, bebem a vida em pequenos goles, as belas garotas ainda carregam seus encantos, mas o fato é que tudo aquilo passou.
 
Longe daqui vimos Airton Senna partir, partiram  Cazuza e Renato Russo; aqui, Zé Henrique, o Paulinho, o “ Pão de Queijo”  e o Chicão também se foram e deixaram, tanto lá como cá, a certeza de que “ heróis, poetas e loucos são imortais”. 
 
É, parece que foi ontem, mas já se foram trinta anos. É muito tempo, muita estrada, mas nada tão longe, nada tão longo que impeça um sorriso tímido desaguar numa risada, o contido aperto de mão explodir num abraço, um almoço de ex-funcionários acabar numa ruidosa festa de amigos, deixando a certeza que o tempo passou, mas o bom daquilo tudo, graças a Deus, ficou. 

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