Cidades portuguesas

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

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Celas e Mós de Celas, duas muito pequenas cidades portuguesas que ficam perto de Bragança e de Nazaré, estão fincadas sobre o mesmo monte. A população de ambas, somadas,  não ultrapassa setenta pessoas e todos seus habitantes se chamam “primo”, eis porque são originários da mesma família. Há telefonia, internet, mas não contam com supermercados: eles produzem e trocam entre si gêneros alimentícios dos quais precisam. Verdadeiro escambo. Trocam batatas por carne de frango ou ovos; trocam leite por tomate, cada casa produz seu próprio azeite e vinhos. Os pães que consomem são caseiros - razão pela qual endurecem rapidamente - fabricados e assados nos fornos de tijolo dos quintais. As casas, muito antigas, foram preservadas: suas características externas permanecem imutáveis, mas seus interiores ganharam mudanças significativas. São coladas umas às outras e quase todas elas com três andares. Há o piso, onde eram  acomodados animais usados no transporte e na lavoura, além de armazenados gêneros alimentícios como queijos, frutas e batata para abastecimento da família durante os meses de Inverno. No primeiro andar estavam cozinha e banheiro; no terceiro, um quarto. Hoje cada casa tem sua divisão própria, mas em todas elas o varal com roupas para secar fica no alpendre do segundo andar, de frente para os passantes. As refeições são feitas nas mesas colocadas nas ruas, aproveitando que são tão estreitas que não permitem tráfego. Casas portuguesas, há invariavelmente pão e vinho sobre tais mesas e, sobre elas,  os pães, já duros, que são cortados com os canivetes que os homens carregam no cinto, para essa finalidade. Os habitantes, quando passam, são convidados para comer junto e se pode, sempre, pôr mais peixe sobre a grelha. Usos, costumes e qualidade de vida ali  parecem estar congelados no tempo.

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