É pecado matar uma cotovia

Por: Sônia Machiavelli

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Escrito por Happer Lee, norte-americana que morreu  neste  2016 aos 90, To Kill a Mockingbird foi publicado em 1960. No ano seguinte ganhou o Prêmio Pulitzer e a consideração de milhões de leitores. A partir de então foi  traduzido para mais de 40 línguas. Vende cerca de um milhão de exemplares por ano. É leitura obrigatória nas escolas dos Estados Unidos. Tornou-se um clássico da literatura de língua inglesa. Mas  até há pouco tempo eu não entendia porque na tradução brasileira  tinha se feito a opção por O Sol É Para Todos, tão diferente da literal, embora a frase corresponda perfeitamente ao tema do romance, que trata do preconceito racial. 

Os portugueses se aproximaram melhor da escolha da ficcionista, embora o mockingbird, pássaro nativo da América do Norte, não seja a cotovia europeia que inspirou Shakespeare, Keats, Milton, Shelley, Andersen, Victor Hugo e outros.  As primeiras edições em Portugal, a partir de 1962, tiveram por título Por Favor, Não Matem A Cotovia, e, mais recentemente, Mataram a Cotovia. Os italianos, por sua vez, também não quiseram a versão literal e o título ficou Il Buio Oltre la Siepe, ou seja, A Escuridão Para Lá da Sebe. Como em nosso idioma, tem muito a ver com a narrativa: além dos muros não deveria  haver trevas, todos os vizinhos merecem visibilidade, têm direito à luz.  
 
Embora dignos, avalio que os títulos em português e italiano desrespeitaram o ato criador da ficcionista. Happer encontrou no pássaro miúdo, plebeu, mal percebido em meio à vegetação, um significado profundo, pois ele imita o som de muitas outras aves, sendo também chamado de mil-vozes. Há uma linda imagem embutida nestes cantos plurais que podem nos remeter a uma frase do romance: “Só existe um tipo de gente: pessoas”.  Particularmente acredito que o nome que um  escritor elege para seu romance  tem  sentido precioso, é  sinalização no caminho da leitura.  Quase  nunca é fortuito ou desconectado da massa literal. No caso de Happer, ela o retirou da boca do  protagonista Atticus Finch, o advogado íntegro e respeitado que defende um negro acusado injustamente de ter violentado uma branca no Sul racista dos Estados Unidos dos anos 30. É conversando com o filho Jem, de dez anos, que ele aconselha: 
“_Preferia que você só atirasse em latas no quintal, mas sei que vai caçar passarinhos. Pode matar todos os gaios que quiser, se conseguir acertá-los, mas lembre-se de que é  pecado matar um mockingbird.”
 
Esta  cena envolve também a irmã de Jam, Scout, 6 anos. Ela comenta: “Foi a única vez que ouvi Atticus dizer que alguma coisa era pecado; perguntei o motivo a Mrs Maudie. “- Seu pai tem razão- ela disse- Os mockingbirds nada fazem a não ser cantar para agradar aos nossos ouvidos. Eles não estragam o jardim de ninguém, não fazem ninhos nos milharais, apenas cantam para alegrar nossos corações. É por isso que é um pecado matá-los.”
 
A história é narrada pela menina, órfã de mãe desde os dois anos. Ela  faz um resgate da personalidade do pai, do julgamento dramático, da maneira como viviam os pequenos agricultores naquele Sul profundo do Alabama. Também  recorda as descobertas de criança que enxerga no irmão mais velho um protetor, o  relacionamento com a babá negra Calpúrnia, os tipos estranhos que despertavam sua imaginação infantil. Pela memória de Scout,   a narrativa vai se tecendo em camadas para mostrar ao leitor a força do preconceito racial e a perda da inocência. Neste aspecto, o pássaro que não deve ser morto é uma metáfora do homem condenado apenas por ser negro e das crianças lançadas precocemente na realidade brutal. 
 
O romance ganha densidade através de diálogos muito vivos e oportunos com os quais o protagonista  vai se revelando em seus valores, educando os filhos, ganhando a admiração da comunidade, inspirando  os que o cercam na direção  do trabalho, do respeito, liberdade:  “ Antes de viver com os outros, eu tenho de viver comigo mesmo. A consciência de um indivíduo não deve subordinar-se à lei da maioria”, responde quando lhe informam  que em Maycomb, o lugarejo  onde tudo acontece, “quase todo mundo acha que os outros estão certos e você está errado”.
 
 Advogado nomeado pelo Estado, Atticus  defende com desmedido empenho o pobre Tom Robinson, acreditando em sua inocência, reunindo provas, recorrendo da condenação nas várias instâncias. Os momentos de embate verbal na pequena sala do júri, onde brancos oprimem negros, impactam  o leitor. De um lado, o preconceito explícito do promotor. De outro, a obstinação do defensor cuja retórica busca comover o duro coração dos jurados. Quando os obstáculos  se evidenciam insuperáveis, ele encontra ânimo para dizer: “ Só porque fomos derrotados uma vez, não é motivo para não tentarmos novamente.”
 
Para entender a relevância deste livro, seria bom lembrar que o ano de sua publicação faz parte de um período de grande agitação política e social nos Estados Unidos, em luta pelos direitos civis. Apenas seis anos antes, em 1954, a Suprema Corte havia determinado o fim da segregação racial nas escolas públicas do país. Pertence a  este passado recente em termos históricos a foto da menina Ruby Bridges, entrando escoltada por policiais na escola que, até então, só podia receber brancos.  E foi em 1955 que a negra Rosa Parks se negou a ceder seu acento no ônibus para um branco, gerando  uma série de protestos dos quais emergiu a figura guerreira de Martin Luther King. Nesse mesmo ano abriu-se a década em que líderes visionários como John Kennedy e Lyndon Johnson transformariam a face do País. Em tal contexto, To Kill a Mockingbird  inscreve-se como contribuição à causa da igualdade,  conforme disse emocionado o presidente Barack Obama, por ocasião  da morte de Happer Lee, no último janeiro.  O Atticus  Finch que a imaginação  da ficcionista criou é um legado de fé no ser humano, de convite à esperança, coragem e resiliência.

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