ausência

Por: Luiz Cruz de Oliveira

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Ela desceu a estrada, transpôs a cancela, atravessou o pátio, subiu os degraus, acomodou-se na varanda.

Nenhum prévio aviso houve.

O céu nada disse, nenhum sinal mandou. A natureza ruminava calma, bafejava o ritual indiferente, enquanto observava os filhotes: homens amando, passarinhos a trinar, fonte entoando cantigas, astros a cintilarem, pombas arrulhando, aragens musicando folhas.

Nenhum grito do vento, nenhum rosnar de trovão, nenhuma dissonância houve.

A manhã transcorrera ensolarada. Lá, bem longe, a cabeça da serra cutucava os pés do infinito. E tudo era só azul.

A tarde caminhara tépida. Aqui perto, à sombra, bichos ruminavam; e, lá no teto do mundo, um rebanho de carneirinhos flutuava. Ao serem observados, mudavam, desapareciam sob formas estranhas.

Os céus nada avisaram.

Tartaruga na areia, e tempo vinha depois do tempo. O dia era sempre dia, tecendo colcha de promessas.

A noite chegava e pagava todas as promessas diante dos olhos arregalados das estrelas e da face enrubescida da lua.

O tempo caminhava atrás do tempo. E tudo era bom.

De repente, tal qual morte súbita, o tempo tropeçou.

Quando não era mais dia, e a noite apenas se pressentia, a desconhecida chegou. Sentou-se nobanco de madeira, ali na varanda, donde se avista o caminho de terra vermelha, cheio de curvas, que sobe a colina (estrada que me levou colheitas e tesouro e por onde ela viera).

Meus olhos desconfiados indagam.

-Ausência.

A peregrina diz o nome – apenas isso – e, despudoradamente, passa à sala, a cozinha, aos quartos. Vai ao quintal, chupa uma jabuticaba, faz careta. Retorna, mexe no armário da cozinha, bebe uma xícara de café, acha-o amargo. A cada passo, seu olhar recolhe todas as minudências dos cômodos, de cada pequeno risco na parede, de cada mancha no chão, de cada folha, de cada árvore do pomar.

Apagada a lamparina, aninha-se em minha cama, donde se apaga o costumeiro perfume.

Apagada a lamparina, apagado fica todo o calor que espantava o inverno de meus sítios.

Agora, o dia vem monótono atrás do outro dia.

O sol, lá do outro mundo espia desinteressado as campinas brancas de geada. Ignora a encanecida cabeleira do morro.

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