Solilóquio

Por: Ronaldo Silva

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Esta poderia ser apenas
uma calma noite de inverno.
Poderia ser simplesmente
uma noite de um sábado qualquer,
num inverno qualquer.

Sob medida, na verdade,
para um sujeito qualquer,
já despido de ideais
e que com serenidade sorri
para a possibilidade da morte.
 
Mas a maldita solidão
esparramada aqui dentro
agrava o frio, amarga o sábado
e vai pingando lágrimas
pelos cantos da casa.
 
Mais graves, porém,
são as lembranças.
Se a crua solidão é castigo,
quando ela é povoada de recordações
converte-se em martírio sem trégua.
 
De fato, quando a solidão
se me apresentava sem passado,
quando não trazia histórias pretéritas
parecia-me menos insuportável.
 
Hoje povoam-na amigos distantes.
Namoradas e flertes desfilam
seus perfumes e suas silhuetas
pelos guetos de minha memória,
sócia de minha desdita.
 
Suspenso na parede o relógio
semelha um juiz fleumático.
Sua voz firme: tic-tac, tic, tac,
apena-me a mais melancolia.
 
Pode ser mais um minuto,
talvez toda a eternidade.

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