O borracheiro lê

Por: Isabel Fogaça

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Fui à borracharia mais próxima com o objetivo de consertar o pneu da bicicleta. Chego, conto as notas amassadas que minha amiga Juliana deu para o pagamento do conserto, e continuo observando um dos moços desmontar a roda inteira enquanto termino meu copo de açaí. Olho para o lado e um senhor permanece imóvel, sujo de graxa, com o jeans rasgado até o joelho, ele lê um livro grosso, e eu esforço-me para ver a capa, enquanto o outro moço que ajeita o pneu da bicicleta fala autoritário: “Pai! A moça está oferecendo açaí para o senhor!”.

O senhor, assustado, pula da cadeira, agradece à gentileza de minha amiga que também observava a cena, e então, ele continua sua leitura. Fico parada assistindo àquela situação: o borracheiro e o livro grosso, enquanto o sol, expansivamente, começava a invadir a borracharia por completo, e também a manipular a pupila do senhor. Ele, demonstra o desconforto no semblante, usa um dos dedos como marcador de páginas e muda de assento.
 
Enquanto observo o borracheiro lendo, minha angústia entrelaçada à ansiedade quer descobrir o título da obra. Abaixo a cabeça de modo ridículo, derrubo meu copo no chão como pretexto, e por diversas vezes falho. E ali, entre tantos devaneios, fico pensando que aquela é a maior descontrução que já vi nos últimos anos, afinal, o senso comum não espera algo do borracheiro além do trabalho pesado e mecânico. Ele nem imagina o que mora em meus pensamentos, apenas encontra os lábios enquanto lê o livro baixinho, tão baixo que dá vontade de encostar a cadeira bem perto só para ouvir.
 
Passo os olhos por todos os cantos da borracharia, vejo uma lousa com uma frase motivacional riscada em giz colorido, minha amiga diz que toda semana o senhor que lê gosta de inovar nas frases. Vejo também, o menino continuar o  trabalho no pneu da bicicleta, e muitos jornais organizados. Não há fotos de mulheres nuas, nem mecânicos de macacão como nos filmes de ação. Aqui a cena principal é o homem que gosta de ler, e a mulher que lhe conta a história com o intuito de dizer que não há lógica em subestimar qualquer trabalho ou ser humano algum.

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