Não faltam livros; faltam leitores

Por: Sônia Machiavelli

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Não restam dúvidas sobre a constatação de que a escrita foi fator civilizatório de suma importância. Ela ensejou ao homem guardar de maneira eficiente a cultura produzida. Mais ainda, permitiu sua transmissão às gerações seguintes. Com a escrita tornou-se mais fácil expor ideias, manifestar sentimentos, sinalizar perigos, relatar descobertas, descrever invenções, divulgar técnicas, verbalizar cenas que já estavam há milênios nas paredes das cavernas. E registrar para contemporâneos e pósteros a matéria dos sonhos que aparecia nas franjas das lendas e foi se corporificando em gêneros literários diversos, da prosa à poesia, do lírico ao épico, num processo de transformação constante.
 
Com papiros em suas diferentes versões  inicialmente; depois com papel, penas de aves, tintas e copistas;  mais tarde com os  tipos móveis  de Gutemberg, a cultura, no sentido de patrimônio acumulado, passou a alcançar um número cada vez maior de pessoas, democratizando o saber. Sem a palavra escrita, em geral;  sem o livro, em particular; sem os jornais que começaram a circular em Veneza ao preço de uma gazeta, então a menor das moedas, a história em nosso planeta não teria sido a mesma. 
 
Da invenção da imprensa no final do século XV à Revolução Francesa no século XVIII, decorreram menos de três séculos. Foi o tempo que se levou para publicar ideias que motivaram leitores a mudar a face das sociedades ocidentais. Eis porém que chegamos a novo momento da história humana. Repetindo o que ocorreu quando o papel suplantou os pergaminhos,  a palavra impressa migra rapidamente do seu suporte tradicional, o papel,  para a plataforma digital, ícone de uma revolução tecnológica que tem poucas décadas e já reconfigura o jeito de se comunicar dos humanos. Só para ficar em  parâmetro  próximo, no Brasil temos mais celulares que brasileiros. E cada vez mais crianças ainda em fase de alfabetização estão usando seu tempo para jogos eletrônicos. 
 
Isto assusta especialmente quando se tem acesso a estudos como o da Fundação Itaú Social, baseado em artigos científicos publicados a partir dos anos 1990. Eles mostram o impacto da leitura feita pelo adulto para a criança. Algumas conclusões: o aprimoramento das habilidades de leitura aos 7 anos afeta o nível socioeconômico que o indivíduo obterá aos 42; o incentivo à leitura na primeira infância está entre os fatores determinantes dos escores de inteligência, da motivação acadêmica, dos anos de escolaridade que ele terá; e a adição de um dia extra por semana de leitura de pais para filhos durante 30 minutos, no período de um ano, nos primeiros 10 anos de vida da criança, potencializa significativamente a sua capacidade de leitura. 
 
Assusta também saber que alguns estudiosos da comunicação andam suspeitando de que estamos jogando no lixo milhares de anos de avanço civilizatório, nos arriscando a ser transformados em consumidores de softwares. Há que se reconhecer  certa razão nisso ao observarmos que especialmente jovens  vão  perdendo a habilidade para ler textos mais complexos. Pelo prazer da interatividade, da instantaneidade, do lúdico encontrados nos celulares, nos computadores, na Internet enfim,  acabam se tornando superficiais, pois é evidente a pobreza da linguagem das redes sociais. 
 
A revista Superinteressante, em sua última edição, traz matéria mostrando o  avassalador crescimento do uso de memes pelos internautas de todas as latitudes. Outra publicação do gênero, esta em língua francesa, alerta para detectada tendência do predomínio da imagem sobre a palavra.
 
Nestes tempos de profundas mudanças, que desestabilizam o status quo de todas as áreas devido à rapidez cada vez maior com que  o verbo é transmitido, repercutindo nas práticas culturais e profissionais, nos indivíduos e nas comunidades, precisamos refletir sobre a palavra. Ela é  bem adquirido, de uso e troca, permeando os estratos da sociedade. Presente em todos os campos e níveis de conhecimento, nas incontáveis manifestações culturais e artísticas, no cotidiano como em situações excepcionais, em âmbito popular e nos circuitos especializados, a palavra equivale à vida. Não podemos prescindir dela. E não devemos abdicar de sua leitura enquanto processo de atribuição de significados, o que requer disponibilidade (e algum esforço) para ir além do já sabido ou da interpretação literal. São imortais os versos de Carlos Drummond de Andrade: “Chega mais perto e contempla as palavras/ Cada uma/ Tem mil faces secretas sob a face neutra/ E te pergunta, sem interesse pela resposta:/ Pobre ou terrível que lhe deres:/ 
 
Trouxeste a chave?” O conselho vale tanto para o autor da escrita como para o protagonista da leitura.
 
Sem leituras consistentes, relegamos a  segundo plano  patrimônio cultural arduamente construído ao longo de séculos. À espera de leitura  há um número  imenso de clássicos, obras atemporais que nos acrescem,  nos explicam, nos completam, nos movem. E tão extensa é a lista que uma vida, por mais longa seja, seria insuficiente para percorrê-la por inteiro. Há novos autores lançados todos os anos, trazendo à cena questões contemporâneas  em estilos diferentes, formas inovadoras, conteúdos  atraentes. Engenho e arte ganham novas cores, mas a essência literária é a mesma:  excelentes prosa e poesia em língua portuguesa  demonstram o potencial dos novos escritores, os que estão dando prosseguimento à construção da literatura brasileira, como  se tem visto em Feiras de diferentes regiões do País. 
 
Mas quando tanto se fala em literatura, obras, títulos, campanhas e lançamentos, uma frase saída da boca de um editor entrevistado por uma repórter de TV  grudou no meu ouvido e desde então muito me tem feito pensar: “Não são os livros que estão sumindo; são os leitores!”

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