dilúvio

Por: Luiz Cruz de Oliveira

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E as janelas do céu se abriram e houve copiosa chuva sobre a terra quarenta dias e quarenta noites. Gênesis 7,11-12

Um dia, ela se foi.
 
Então, uma comporta do inferno se abriu, e copiosa dor choveu sobre a vida.
 
Durante quarenta dias choveu tristeza, desânimo, mágoa, desencanto, lágrima, amargura.
 
Durante quarenta noites choveu insônia, medo, desespero, lamúria, trote de cavalo preto, ruídos de foice, gritos da morte.
 
Durante quarenta dias e quarenta noites choveu, e choveu, e choveu. E a solidão foi cobrindo os jardins, as praças, as cidades. Desapareceram os vales, as pontes, os caminhos e as encostas. Por fim, encobriu-se o topo das montanhas mais altas.
 
Nenhum anjo desceu das alturas, nenhuma divindade veio ensinar construção de arca.
 
Ao homem desamparado, restaram apenas o seu caiaque e o seu remo rudemente lavrados. 
 
Sob a bruma, mar de névoa que escondeu a vida, nada havia, afora o choro lancinante da solidão, cujas carnes o remo rasgava, e de cujas entranhas o homem se alimentava, obediente ao instinto de conservação.
 
Muitos anos se passaram.
 
O caiaque encalhou em arrecifes, preso numa réstia de esperança, num banco de ilusão. O remo restou traste inútil, perdido em atol de desejos.
 
Inerte, o homem olha para a névoa cujo cinza é engolido pelo negro à medida que se distancia da embarcação. Olha para a bruma, procurando estrelas, procurando estradas. Por uma delas há de chegar uma pomba branca, trazendo no bico uma rosa vermelha.
 
Pelo caminho escuro há de chegar, numa canoa, uma mulher que acenda o farol, que o transporte mar afora, rumo à manhã.

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