Arrumar para arrimar

Por: Maria Luiza Salomão

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A vida às vezes aperta. Faz parte do ser vivo a presença da angústia, que pode sufocar e aprisionar o peito, impedir a criatividade se muito intensa. 

Mas a angústia pode ser a companheira que sinaliza a necessidade de rearranjos, reconfigurações dos sentimentos/pensamentos, das percepções, das expectativas, das dores que limitam e constrangem. A angústia, desse modo, pode ser a fiel bússola a sinalizar os recursos para lidar com os obstáculos ao crescimento psíquico e espiritual.  
 
Tenho ido bastante a São Paulo, e as paredes grafitadas têm cativado meu olhar. Ali estão reflexões condensadas em imagens, poesias do cotidiano expressas em frases ou palavras-baú. 
 
A atividade de grafitar já foi considerada transgressiva, e, para alguns grafiteiros, o fato de ter deixado de ser atividade marginal, tornou um tanto mais banalizado o que se sentia como “heroísmo”.  Entendo isso, porque, afinal, pensar é um ato criativo que pode ser penoso, já que implica em se haver com situações angustiosas, desconhecidas.
  
Sair do “quadrado familiar” gera angústia: ousadia ao abrir o espírito para novos horizontes; ao suspender a pálpebra sonolenta do familiar, para o vislumbre do que contraria crenças estabelecidas que são como  carne e osso a sustentarem um esqueleto de convicções. 
 
Não é fácil criar uma nova perspectiva; permitir novas sensações; ver emergir sentimentos que não se previa... 
 
Tenho arregalado meus olhos para as ruas que caminho, para o céu, para o chão, para as pessoas que cruzo nos “caminhos da roça” – casa/trabalho; casa/estudos em São Paulo; casa/supermercado; casa/bares e restaurantes; casa/cidade em que moro; casa/ cidades que visito. Perscruto abismos e cavernas: mundos e fundos.
 
O mundo é mesmo muito vasto, o poeta Drummond está certo: o mundo não cabe em um só coração. Limita-se o olhar, limita-se a percepção, limitam-se os sentidos organizados para aquilo que se presume alcançar ver, ouvir, tocar, sentir na pele, sentir nas entranhas. Os  limites pressupõem que não se irá sofrer (o que os olhos não veem...).  
 
Somos seres limitadamente humanos, embora abertos; sensíveis, embora tantas vezes impermeáveis; pensantes embora, paradoxalmente,  nos permitimos ser robotizados.
 
A frase grafitada sumiu dentro de mim; as conexões entre as palavras se perderam, mas ficou: o “arrumo” e o “arrimo”.  Acreditei que não me esqueceria da frase. Esqueci. 
 
Conecto, ao meu modo, o arrumar e arrimar. Descubro arrimar verbo, que sempre ouvi substantivo (arrimo).
 
Arrumo e arrimo -  constante oscilação entre o caos e o cosmos que vivemos nosso cotidiano. Há que ter arrumação cósmica para obter apoio, amparo, escora, arrimo no caos.  
 
Nunca percebera que dentro da palavra arrumar mora o rumo.  Ter rumo é essencial: arrima, ampara, sustenta. Mesmo que mudemos de rumo. Caminha-se em direção a... e é uma ordem de passos. 
 
Arrimar é coisa do possível, sempre o possível. Arrumar tem a haver com o necessário, sempre o necessário. 
 
Entre o possível e o necessário...grafitar a alma... para que ela contenha a angústia de existir, existir sempre, ampla e presentemente.    

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