Memórias

Por: Isabel Fogaça

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Estranha sensação que o mundo continua girando independente do que você guarda no peito e na memória. Quando eu era criança, meu pai me ensinou a rezar. Então, todas as noites eu e meu irmão repetíamos várias palavras engraçadas que meu pai dizia em voz alta no pé da cama. Aquele momento era nosso; apesar de desconhecermos a origem e até mesmo o significado de todo aquele ritual, estávamos conectados. Ninguém sabe disso além de nós três, e daqui algumas décadas, quando nos tornarmos nada mais que poeira levada pelo vento, ninguém saberá da ternura que senti.

Quando eu tinha dezesseis anos, minha tia estava perdendo o cabelo por causa do câncer. Ela sempre foi muito bonita e vaidosa, gostava de se maquiar, e usar bijuteria. Estar doente talvez ameaçasse sua beleza exterior, então, certa vez, minha mãe foi a uma loja e comprou um vestido rosa elegante, pediu que a moça colocasse num embrulho com fita de cetim. Quando minha tia abriu aquilo tudo e viu o vestido, ela teve um ataque de risos por tamanha alegria. Poucos meses depois deste episódio ela partiu da vida terrena, e até hoje aquela risada gostosa ecoa em minha memória, de minha mãe e de mais ninguém.
 
Quando eu saí de casa permanentemente para cursar uma faculdade, levei apenas uma mochila, senti várias sensações que talvez ainda não possuam nome mas posso adiantar que foi dolorido à beça. Depois, quando eu segurei meu diploma, sentada ao lado de pessoas de quem  passei ao lado toda minha a graduação, pensei que de algumas eu ainda nem sabia o nome. Então naquele momento senti que realmente estamos sozinhos, e devemos firmar os pés no chão porque ninguém conhece nossas lutas, muito menos os sentimentos que trazem nossas memórias. 
 
Esboço algumas das várias sensações que carrego dentro do peito, afinal, as memórias são o tesouro do homem porque são o reflexo de como ele aproveita seu tempo. Penso nisso enquanto ando de bicicleta na avenida, sentindo a brisa bagunçar todo meu cabelo; penso nisso quando resgato lembranças que todos desconhecem e acredito que as pessoas devem sim compartilhá-las desde que sejam positivas. 
 
Então, tenho que confessar que escrevi tudo isso para dizer que conheci um menino muito bonito que muito me ensinou e me fez sentir coisas boas na última semana. Não sei quando nos veremos outra vez, afinal, ele está indo para longe, mas gosto de pensar na construção da música que remete à minha adolescência no rádio do seu carro, junto do seu sorriso dizendo: “Você está cantando errado”, ou das conversas intermináveis que eu pedia: “Não durma, não durma”, e das vezes que pensei “Quero ser destemida como ele” ou “Como os olhos dele brilham quando ele toca violão”. E nós dois construímos essas memórias aqui, e estão certificadas e eternizadas nesta folha de jornal, e também em meu coração.

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