Dona Cléria

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

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Cléria Mazzotini, garota de menos de 16 anos, descendente de italianos nascida nos arredores de Altoporã, estado de São Paulo, loira e de olhos claros, casou-se com Abdo Bittar, sírio de nascimento e alguns anos mais velho que ela.  Vieram para Franca e foram morar com a família do marido, no bairro da Estação onde  dois  dos irmãos e Abdo eram responsáveis pela Loja 3 Irmãos, que comercializava alimentos.  Quando Cléria chegou na família, menina ainda, encontrou algumas barreiras, por exemplo, o diálogo com a sogra, que não falava uma palavra em português.  Grande obstáculo que venceu com galhardia: aprendeu o árabe e o falava com tamanha fluidez, que confundiu muita gente com relação à sua própria nacionalidade.  Dona Cléria e sêo Abdo vieram para o centro da cidade, montaram loja no endereço onde passaram a viver e viveriam muitos anos, bem no cruzamento das ruas Voluntários da Franca e Ouvidor Freire. Ali também era a residência da família já grande por aquela época. O casal teve seis filhos: Manir, Nazir, Waldir, Samir – ou Nenê, Samira e Manira. Dona Cléria era adorada pelos netos e pelas pessoas com as quais convivia, por seu espírito agregador e delicadeza inatos. Sem oportunidade de instrução, desenvolveu naturalmente a habilidade  de lidar com as pessoas, o que a fazia querida até pelos representantes da Casa Única com os quais, ela e os filhos que trabalhavam na loja, amiúde dividiam a mesa. Sábia e disponível para os netos, costumeiramente tinha todos a seu redor, atraídos pela avó carinhosa e disponível. Às vezes alguém registrava o momento, como esse da foto onde estão, sentados e da esquerda para a direita, Mônica, Roberto, Milton, Sílvia (no colo), Renata, Maria Lúcia, Mauro e Ismael.; em pé, Verônica e Manir Bittar Júnior. Não estão na foto, os netos Anelise,  Cléria,  Cristina,  David,  Fausto,  Heloísa,  Lívia,  Maria Isabel, Mirynha,  Nazir,  Rafael, Regina,  Renata e Ricardo.  A todos eles ensinou que “saber não ocupa lugar”; e, em particular só para as netas, certa coquetice espelhada no seu próprio comportamento: que elas fossem vaidosas, usassem batom, estivessem sempre penteadas. Quando o Papa João Paulo visitou o Brasil, ela não mais enxergava, mas acompanhou a cobertura da visita pela TV com tanta atenção, que era como se visse as imagens. Dizem os netos que o maior legado da avó a seus descendentes foram as lições, com seu próprio exemplo,  sobre acolhimento. Assim eles todos, tenham ou não convivido,  têm muitas saudades dela.  

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