Lava Jato- o livro

Por: Sônia Machiavelli

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Enquanto me preparava para escrever algumas considerações sobre o livro Lava Jato, de Vladimir Netto (editora Primeira Pessoa), no início da manhã de 2 de agosto, fui informada pela TV que tinha sido deflagrada a 33ª fase da Lava Jato, batizada de  Operação Resta Um. O nome dizia respeito à empreiteira Queiroz Galvão, que tirou do País seu diretor financeiro, Augusto Amorim Costa, apontado como pagador de propinas a ex-dirigentes da Petrobras  em contas secretas no Exterior. Subordinado de Ildefonso Colares Filho e de Othon Zanoide de Moraes – executivos ligados à empreiteira e presos naquela terça-feira -, Amorim Costa foi denunciado como operador de recursos ilícitos por outro criminoso da Lava Jato, Pedro Barusco, ex-gerente de Engenharia da Diretoria de Serviços da Petrobras.

Pedro Barusco foi um dos primeiros delatores do esquema de desvios da então poderosa empresa brasileira. Causaram estarrecimento tanto a riqueza de detalhes de seu depoimento como o valor que aceitou devolver à sua empregadora: 97 milhões de dólares (!)desviados e depositados em contas na Europa. À parte o medo de permanecer preso, que outro motivo o teria levado, naquele momento,  a se adiantar à conclusão das investigações e abrir  caminho para uma escalada de nomes e valores que viriam a público em relatos impressionantes de assaltos aos cofres da Petrobras ? Ele havia recebido pouco antes um diagnóstico de câncer ósseo em adiantado estado de evolução. Detalhes como este o leitor de Lava Jato encontrará às dúzias nas 383 páginas desta obra monumental que não vai parar por aí.  O próprio autor disse na semana passada que continua acompanhando de perto os lances da Mega Operação que marcará a história do Brasil. Eles serão a substância de Lava Jato 2, pois o capítulo final desta saga está longe de ser escrito.  As páginas iniciais do segundo volume vão relatar a prisão de Newton Ishii, o “Japonês da Federal”, detido pela própria corporação que o alçou à fama. Ele se tornou figura  conhecida por escoltar executivos, políticos e operadores até à sede da Polícia Federal em Curitiba. Quando a prisão de Ishii aconteceu, o texto final de Lava Jato, que abrange desdobramentos das Operações até o último mês de maio, já estava na gráfica.
 
A tiragem de 30 mil exemplares , lançada no dia 7 de julho, esgotou rapidamente, revelando as qualidades do jornalista Vladimir Netto, que herdou da mãe Miriam Leitão e do pai Marcelo Netto o talento, o gosto e a garra pelo bom jornalismo, aquele que não se acovarda diante dos detentores temporários de poder. O fato de trabalhar no jornalismo da  Globo o ajudou muito também,  pois há anos vinha fazendo reportagens investigativas em Brasília. Em Lava Jato, seu trabalho torna-se ainda mais admirável pelo que deixa depreender da exaustiva busca e checagem de nomes, dados, datas, processos, informações e bastidores que tornaram conhecido o juiz  Sérgio Moro, escolhido para ser o fio condutor da história. Desde março de 2014,  as diversas fases da Operação vêm revelando aos brasileiros os crimes cometidos na maioria das vezes por “gente acima de qualquer suspeita”. Até abril  deste ano, já tinham sido recuperados  em acordos de colaboração 2,9 bilhões de reais. “ O sucesso se deve, em parte, ao bom ritmo que Moro imprimiu aos processos em sua vara (...)que sacudiu o Brasil com apenas 15 funcionários, um assessor e um juiz. Ele tinha prometido celeridade , e foi o que entregou ao país”, diz Vladimir em seu livro. E completa: “Mas isso teve um custo. Em outubro de 2015, em um seminário realizado em São Paulo pela revista inglesa The Economist, Moro admitiu que estava cansado. Com razão. O tempo tinha sido intenso, de muito trabalho e muita pressão, desde o primeiro passo do caso, que foi a quebra do sigilo do Posto da Torre, em Brasília, no dia 13 de julho de 2013.” Foi essa decisão, reforça o relato de Vladimir,  que permitiu descobrir as ligações de Alberto Youssef  com o diretor Paulo Roberto Costa, da Petrobras, presenteado pelo doleiro  com um carro de luxo. Oficialmente, a Lava Jato começou em 14 de março de 2014, mas desde julho de 2013 até fim de outubro de 2015, em que Sérgio Moro  falou para uma plateia de empresários, jornalistas estrangeiros e economistas, um turbilhão passou pela vida do juiz e do país. E tudo em menos de dois anos e meio. Pouco tempo para muitos acontecimentos e revelações. A Polícia Federal e o Ministério Público haviam puxado um fio. Veio um novelo.  Depois do primeiro, vários outros. O nome Lava Jato se justificava:  o posto de Curitiba,  que não tinha serviço lava à jato, lavava quantias enormes, lavava tudo, “lavava até jato”, no dizer de uma policial que participava da investigação. O verbo era usado de forma transitiva. E assim ficou batizada a Operação: Lava Jato.
 
Embora trabalho jornalístico, portanto factual, criterioso, o autor conseguiu conferir ao relato um tom eletrizante de narrativa policial. Esse aspecto contribui para que o leitor se torne a cada página mais ávido pelas informações que, embora conhecidas do noticiário publicado diariamente pela imprensa há mais de dois anos, chegam  acompanhadas por detalhes relatados de forma a manter o suspense. É o caso da prisão de Marcelo Odebrecht, que levou  um agente policial a se passar por milionário interessado na compra de uma casa no condomínio onde mora a família do empresário. Da iniciativa do Ministro Teori Zavascki, poucas horas antes da prisão de Delcídio Amaral, ligando para cada um dos cinco ministros da Segunda Turma e para o presidente do Tribunal, avisando-os de que algo muito grave havia acontecido. Da decisão da criminalista Beatriz Catta Preta, que havia orientado várias delações, de fechar seu escritório e deixar o país depois de receber ameaças  da CPI da Petrobras. Da sagacidade do filho de Nestor Cerveró, Bernardo, que, sendo ator, conseguiu  montar o cenário perfeito para gravar Delcídio. E do espanto deste, no seu quarto de hotel, às seis da manhã, quase não acreditando na ordem de prisão que recebia: “Mas pode isso, com um  ministro?”
 
Podia. Pode. O que o País fará com o resultado do trabalho de Sérgio Moro, dos procuradores da República e dos policiais federais ainda não está definido, alerta o autor nas páginas finais. A Lava Jato é uma oportunidade para se elevar a qualidade da nossa democracia. As mudanças podem vir ou não. A escolha está nas  nossas mãos. Nas mãos do povo brasileiro.
 
No prefácio de Lava Jato  Fernando Gabeira sustenta  que “conhecer a Lava Jato e sua trajetória é conhecer uma das maneiras  pelas quais o Brasil pode construir um novo caminho para dificultar a corrupção e puni-la com severidade.” Nelson Motta  lembra na contracapa que “com um juiz justo e corajoso e uma equipe de jovens procuradores implacáveis e determinados na aplicação da lei para todos, a Lava Jato é um épico em movimento que está mudando o Brasil, superando a ficção mais delirante.” O cineasta José Padilha comenta que o livro, “ baseado em extensa pesquisa  feita durante toda a Lava Jato, além de narrar de forma empolgante uma incrível operação policial, é também um documento histórico de valor imprescindível para o Brasil.”
 
Padilha, aliás,  acaba de adquirir os direitos  do livro de Vladimir Netto e vai produzir para o Canal Netflix uma série sobre o maior escândalo de corrupção no Brasil em toda sua história. 

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