Das Sutilezas

Por: Maria Luiza Salomão

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Pela quinta ou sexta vez eu, meu velho eu, eu ouço, eu escuto esse CD que comprei ainda essa semana, de Johann Sebastian Bach (1685-1750), interpretado por Nelson Freire.  Da primeira vez, sinto o impacto da técnica do pianista brasileiro, ouço o som monocórdico do piano, a intensidade equilibrada de sons – nem muito graves nem muito agudos. O som barroco do século XVII.  

Da segunda ou terceira vez, sinto a emoção – a densidade da travessia dolorosa, como uma via sacra de cruzes e lamentos, sangue e lágrimas. E, no entremeio, em alguma faixa, uma alegria insana de um carnaval na avenida. 
 
Da quarta vez que escuto, um silêncio em mim... uma harmonia entre ouvir e escutar...uma pesca de notas aqui e ali...pirilampeiam sentidos... vaga-lumes...vaga-sons...aqui e ali...uma trama que leva a uma encruzilhada...parte minha vai por ali...parte outra minha vai por aqui... e nos encontramos lá... que espanto! Estamos uníssonos! 
 
Mas a quinta e sexta que ouço o mesmo CD...ou sétima e oitava? Sim, sou capaz de escutar as sutilezas, antecipo imagens, sou companheira de inefáveis, de evanescentes, de fugazes, intensas formas simultâneas de sentir a graça, de registrar algo não exatamente sensorial. 
 
Não importa quão efêmeras sejam as impressões, depois de várias escutas: percebo que não sou de pedra, nem de carne, nem é meu esqueleto o que me dá sustento e equilíbrio, nem são os meus ouvidos os responsáveis pelo que ouço, ou meu cérebro.  É algo além...o que escuto...o que ouço...o que sinto...a percepção é outra! 
 
Há algo maior, mais sutil, imponderável,  que não atino. Se isso é o barroco - o “estranho, irregular, extravagante”, na origem etimológica do termo, creio que tenho paixão pelo barroco. Adélia Prado se diz barroca.  É palavra portuguesa que qualifica uma pérola de formato irregular.  
Irregular, estranho, extravagante mistério, essa pérola de um som que me faz  bachianamente viva. Aleluia. 

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