‘Quintanares’

Por: Eny Miranda

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“Havia um tempo de cadeiras na calçada. Era um tempo em que havia mais estrelas. Tempo em que as crianças brincavam sob a claraboia da lua. E o cachorro da casa era um grande personagem. E também o relógio da parede! Ele não media o tempo simplesmente: ele meditava o tempo”.
Mário Quintana
 
Sim, havia um tempo de cadeiras na calçada! Tempo de relógios que celebravam os dias, muito mais do que os contavam ou mediam. Cantavam os minutos e as horas - porque minutos e horas eram de se cantar, não de se contar. Era um tempo de grandes pêndulos brilhando e balançando por trás de vidros bisotados, embalando e enchendo de luz e encanto muitos olhinhos curiosos. Tempo dos carrilhões, dos cucos, saindo de florestas de madeira presas às paredes para saudar a hora chegada. Porque só se via o chegado e o vindouro - o vindo do ouro. 
Era o tempo do crescimento, das brincadeiras de rua, sob a Lua, o Sol, a chuva... Tempo sem passado e “sem paredes. Só horizontes”. 
Perdido? Perdidos?
“O mundo é um búzio oco, menino.../ Mundo de vozes perdidas” em ecos de perguntas eternas. Mas existe tanta coisa nos invisíveis do mundo... Vê: “E há uma rua encantada/ que nem em sonhos sonhei...”
Ai, que hoje me quintaneio toda! 
Por quê? Simplesmente porque a amiga Cirlene Teixeira nos enviou alguns sonhos de certo poeta gaúcho... Então me perco na eternidade destes sonhos: a mesma eternidade em que vive a poesia.
“Enquanto isto, o tempo engendra a morte.” Sorte que eu sei voar, “sei me teleportar: estou agora/ em um Mercado Estelar... E olha!/ Acabo de trocar/ - em meio aos ruídos da rua/ alheia aos risos da rua -/ todas as jubas do Sol/ por uma trança da Lua”. 
Vivendo Quintana, passarinho.

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